domingo, 19 de março de 2017

Os planos de (Reinhard) Heydrich no início de outubro de 1941

Não podemos dizer com certeza se Hitler decidiu no início de outubro de 1941 exterminar os judeus da Europa em campos de extermínio. Mas podemos assegurar, entretanto, que Heydrich desejava exterminá-los em áreas controladas pela Alemanha. Veja como. Em 2 de outubro de 1941, Heydrich descartou o reassentamento para o Oriente de tchecos que eram hostis à Alemanha porque "eles formariam um grupo de liderança no Oriente, que seria dirigido contra nós [denn aussiedeln kann ich sie nicht, weil sie drüben Im Osten eine Führerschicht bilden würden, die sich gegen uns richtet]". Ele afirmou que essas pessoas deveriam ser "colocadas contra a parede [sie endgültig a die Wand zu stellen]". No entanto, dois dias depois, Heydrich encontra Meyer, Leibbrandt, Schlotterer e Ehlich e reclama que as demandas de trabalho judaico impediriam um "reassentamento total dos judeus fora dos territórios ocupados por nós" [NO-1020, VEJ 7, pág. 153.: "Dies würde aber den Plan einer totalen Aussiedlung der Juden aus den von un besetzten Gebieten zunichte machen]".

Essas afirmações só podem ser conciliadas se o "totalen Aussiedlung der Juden aus den von uns besetzten Gebieten zunichte machen" de Heydrich for um eufemismo para matar os judeus nos territórios ocupados pelos alemães, porque a declaração de dois dias antes havia descartado o reassentamento de populações hostis em colônias no Leste e os judeus eram intrinsecamente uma população hostil na cosmovisão nazista, como demonstrado pela declaração de Heydrich em Wannsee que, qualquer remanescente judeu tinha de ser "tratado em conformidade, porque é um produto da seleção natural e agiria, se solto, como uma semente de um novo avivamento judaico (ver o registro da história)". Isso também é confirmado pelo fato de que Heydrich bloqueou a emigração de judeus espanhóis residentes na França para o "Marrocos espanhol", porque, segundo Heydrich, "esses judeus também estariam fora do alcance direto das medidas para uma solução básica para a Questão Judaica a ser posta em prática depois da guerra [veja a nota 17 de Browning aqui]." O plano de Heydrich era claro; a única questão é saber se, ou não, Hitler compartilhou isso até essa data; E se não, quanto tempo levou para Hitler dar luz verde?

Fonte: Holocaust Controversies
http://holocaustcontroversies.blogspot.com/2017/03/heydrichs-plans-in-early-october-1941.html
Texto: Jonathan Harrison
Título original: Heydrich's Plans in early October, 1941
Tradução: Roberto Lucena

sexta-feira, 10 de março de 2017

Nazismo de esquerda? (Ian Kershaw) O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita - Parte 03

Destaque inicial da edição espanhola do livro (Título em castelhano: "Descenso a los infiernos. Europa 1914-1949"), sobre Kershaw (tradução minha): "Ian Kershaw, um dos mais prestigiosos historiadores europeus de nosso tempo, autor de uma monumental biografia de Hitler, oferece-nos agora sua obra mais ambiciosa: uma história da Europa desde a primeira guerra mundial até nossos dias, que arranca com esse relato das terríveis décadas que vieram a se acumular no continente os efeitos de duas guerras mundiais, da crise econômica dos anos trinta e das comoções sociais que conduziram, por um lado, à revolução bolchevique e, por outro, a ascensão do fascismo e do nazismo. Kershaw não se limita ao relato dos sucessos políticos e militares, senão que procura registrar a sociedade que os protagonizou, aprofundando-se nas condições de vida dos europeus ou explorando sua cultura, para saber como viam e interpretavam os acontecimentos de seu tempo. Seu propósito, relata-nos, foi o de explorar no passado as forças que determinaram a configuração do presente em que vivemos."

Ainda sobre Ian Kershaw: "Sir Ian Kershaw é um historiador e professor britânico. É professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, e uma das principais autoridades académicas sobre Adolf Hitler."

A quem não pegou a série desde o começo: Parte 1, Parte 2

Abaixo seguem trechos sobre a extrema-direita europeia (fascismo e nazismo) contidos no livro. Da série "Nazismo de esquerda? O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita", que mostra o quanto são ridículos e desonestos (além da falta de fontes sérias, e muitas vezes bastante ignorância e um pedantismo fora do comum) os grupos (em geral grupos neoliberais radicais) que panfletam este mantra panfletário no Brasil. O mais engraçado foi ter sido rotulado de "doutrinado" quando os textos publicados foram tirados de livros de dois historiadores britânicos (pelo visto esta direita que se contorce com os textos mal lê os posts direito), que reforçam como a discussão política no Brasil se empobreceu com essa cretinice generalizada impulsionada em grande parte pela mídia corporativa brasileira.

E um aviso ao pessoal mal educado que vem com esses sopros de "autoridade" (autoritarismo) descendo a lenha nos comentários: sugiro moderarem o tom. Discordar é bom e saudável, "fazer pregação" não. Em vez de se alterarem com apelos de "ordem", leiam os livros destacados e tirem suas próprias conclusões, ninguém está impedindo vocês de os lerem, mas ninguém tem obrigação de aturar "afetação" alheia. Evitem também repetir mantras/clichês/baboseiras de lunáticos de internet ou "gurus de seitas virtuais" que se proliferam no país dessa "Nova Direita" ou mesmo de algum "coletivo psolento pós-moderno", melhorem o nível da discussão (e mais honestidade também e menos fanatismo), isso é possível (espero...).

Autor: Ian Kershaw
Livro: De Volta do Inferno: Europa, 1914-1949
Título original: To hell and back (2015)

"Resenhas" do livro (em inglês):
https://www.theguardian.com/books/2015/oct/30/to-hell-and-back-ian-kershaw-review
https://www.nytimes.com/2015/11/29/books/review/ian-kershaws-to-hell-and-back-europe-1914-1949.html?_r=0
http://www.hsozkult.de/review/id/rezbuecher-25264
https://www.ft.com/content/ba50c1ec-7c10-11e5-98fb-5a6d4728f74e

Pág. 16-17

O nacionalismo estrepitoso surgido depois da Primeira Guerra Mundial ganhou ímpeto não com as rivalidades étnicas, mas também devido ao conflito de classes. A percepção de unidade nacional podia ser enormemente intensificada pelo foco em supostos “inimigos” de classe dentro ou fora do Estado-nação. A imensa turbulência econômica que se seguiu à guerra e as medonhas consequências da crise da década de 1930 potencializaram o antagonismo de classes em toda a Europa. O conflito de classes, com frequência violento, já havia pontuado, naturalmente, toda a era industrial. No entanto, com a Revolução Russa e a criação da União Soviética, ele se tornou muito mais forte em comparação com o período anterior à Primeira Guerra Mundial. Tratava-se da proposição de um modelo alternativo de sociedade, que tinha derrubado o capitalismo e criado uma “ditadura do proletariado”. As ideias da eliminação da classe capitalista, a expropriação dos
meios de produção pelo Estado e a redistribuição das terras em grande escala a partir de 1917 atraíram amplas parcelas das massas empobrecidas. Contudo, a existência do comunismo soviético também dividiu a esquerda, debilitando-a de forma fatal, ao mesmo tempo que fortalecia muitíssimo as forças da extrema direita nacionalista. Elementos revitalizados da direita podiam direcionar as energias violentas daqueles que se sentiam ameaçados pelo bolchevismo — de modo geral, as elites proprietárias tradicionais, as classes médias e os camponeses proprietários de terras — para movimentos políticos novos e extremamente agressivos.

****
A contrarrevolução, tal como o apelo revolucionário da esquerda, explorava o rancor e as angústias do conflito de classes. Os movimentos contrarrevolucionários ganharam maior popularidade onde foram capazes de combinar o nacionalismo extremado com um antibolchevismo virulento. Também nesse caso, os países da Europa Central e Oriental, onde a ameaça bolchevique era vista como iminente, foram os mais afetados. O maior perigo internacional, porém, ocorreu onde a combinação de nacionalismo extremo e ódio quase paranoico ao bolchevismo estimulou o surgimento de movimentos de massa de direita — que conseguiram ascender ao poder na Itália e, mais tarde, na Alemanha. Nesses casos, quando as energias nacionalistas e antibolchevistas carregadas de ódio que haviam impelido a extrema direita ao poder puderam ser canalizadas para a agressão externa, a paz na Europa se viu gravemente ameaçada.

Pág. 18

Os sonhos da Alemanha de dominar a Europa se extinguiram com sua completa derrota, devastação e divisão em dois Estados. Surgiu na Europa Ocidental uma nova disposição de desarmar o antagonismo nacionalista em favor de cooperação e integração. As fronteiras tornaram-se fixas, devido à presença das novas superpotências. A transição do antigo antibolchevismo, que fortalecera a extrema direita, para uma ideologia de Estado na Europa Ocidental promoveu uma política conservadora estável. E, principalmente, o capitalismo reformado (dessa vez com liderança ativa dos Estados Unidos) gerou uma inacreditável prosperidade na metade ocidental do continente, apoiando com isso a estabilidade política. Essas mudanças fundamentais ocorridas depois de 1945 combinaram-se, todas elas, para remover a matriz de elementos de crise que quase destruíram o continente em duas guerras mundiais.

Pág. 125

A SOBREVIVÊNCIA DA DEMOCRACIA NA ALEMANHA
A Marcha sobre Roma dos fascistas de Mussolini teve efeito imediato sobre a extrema direita radical no cenário político cada vez mais turbulento da Alemanha. Desde 1920, um incendiário nacionalista e racista de notável talento demagógico, Adolf Hitler, chamava a atenção nas cervejarias de Munique, embora praticamente só nelas. Em 1921, ele se tornara líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (nsdap), que em certos aspectos, como a formação de um violento braço paramilitar, assemelhava-se ao Partido Fascista de Mussolini em sua faseinicial. O Partido Nazista, como o nsdap passou a ser chamado, diferia pouco de outros movimentos nacionalistas e racistas da Alemanha. No entanto, Hitler era capaz de arrebatar multidões como nenhum outro orador. Embora ainda pequeno, seu partido tinha adquirido seguidores rapidamente, em especial na Baviera — estado que tinha considerável autonomia regional dentro do sistema federativo alemão e, desde 1920, bastião da oposição nacionalista ao que se entendia como a democracia “socialista” na Prússia, de longe o maior estado da Alemanha.

Pág. 127

Mais do que qualquer outra coisa, a questão das reparações de guerra manteve a tensão política em alta durante 1921-2, funcionando como oxigênio para a direita nacionalista. A violência política estava sempre próxima. Terroristas de direita cometeram 352 assassinatos políticos entre 1919 e1922. A democracia parlamentar era atacada tanto pela esquerda como pela direita. Um malogrado levante comunista no cinturão industrial da Saxônia, no segundo trimestre de 1921, provocou lutas ferozes durante alguns dias, antes que a polícia prussiana o sufocasse. Apesar da derrota, os comunistas continuaram a ganhar apoio nas áreas industriais. Já na Baviera, onde o governo estadual recusou-se a pôr em vigor a Lei de Proteção da República, aprovada pelo Reichstag em 1922 para combater o extremismo e a violência, a extrema direita nacionalista ganhava novos adeptos.

Pág. 127-128

O comando do Exército assumira uma postura ambivalente desde a fundação da república, defendendo o Estado em teoria, mas somente tolerando a nova democracia, sem entusiasmo. O comandante supremo do Reichswehr, general Hans von Seeckt, enviava sinais pouco claros. Recusou-se a intervir para restaurar a ordem na Baviera, mas, quando cresceram os boatos de um putsch, recomendou aos líderes políticos bávaros que não apoiassem os clamores nacionalistas cada vez mais veementes e inflamados por parte das milícias paramilitares de extrema direita. O comando bávaro do Reichswehr dera sinal verde para uma marcha sobre Berlim e a proclamação de uma ditadura nacional — ecos dos feitos de Mussolini na Itália —, mas, quando Von Seeckt jogou água fria na ideia e declarou que não atuaria contra o governo legal em Berlim, a ala bávara do Exército voltou atrás e deixou de apoiar o golpe.

Encurralado, Hitler decidiu que não tinha alternativa senão agir, para não ver seu apoio sumir pelo ralo. A tentativa de putsch, que ele lançou teatralmente numa grande cervejaria de Munique em 8 de novembro de 1923, frustrou-se vergonhosamente na manhã seguinte, debaixo de uma fuzilaria da polícia no centro da cidade. O malogro do putsch da cervejaria foi como a lancetada de um abscesso no organismo político. Seus participantes foram detidos e, alguns meses depois, os líderes, inclusive Hitler, foram julgados e condenados à prisão, ainda que essas penas fossem lenientes. A extrema direita fragmentou-se. A crise passou. A moeda esta bilizou-se logo depois, e foi aprovado um novo plano, mais condescendente, para o pagamento das reparações. A democracia sobrevivera — mas por um triz.

Pág. 128

Até que as reparações pudessem ser liquidadas, o afrouxamento dos grilhões de Versalhes e a reconstrução do Exército teriam de esperar (ainda que acordos secretos com a União Soviética, depois do Tratado de Rapallo, em 1922, tenham criado certo grau de cooperação para o treinamento de oficiais, contornando restrições impostas em Versalhes). Mas, sem apoio do Exército, a extrema direita nacionalista da Alemanha não tinha, em 1923, a menor possibilidade de emular a ascensão do fascismo ao poder que ocorrera na Itália no ano anterior. O perigo para a democracia passou. Tempos novos e melhores estavam por vir. A ameaça, porém, apenas diminuíra, mas não desaparecera.

Pág. 129

Até que as reparações pudessem ser liquidadas, o afrouxamento dos grilhões de Versalhes e a reconstrução do Exército teriam de esperar (ainda que acordos secretos com a União Soviética, depois do Tratado de Rapallo, em 1922, tenham criado certo grau de cooperação para o treinamento de oficiais, contornando restrições impostas em Versalhes). Mas, sem apoio do Exército, a extrema direita nacionalista da Alemanha não tinha, em 1923, a menor possibilidade de emular a ascensão do fascismo ao poder que ocorrera na Itália no ano anterior. O perigo para a democracia passou. Tempos novos e melhores estavam por vir. A ameaça, porém, apenas diminuíra, mas não desaparecera.

Pág. 163

Nem todas as ligas eram fascistas. Algumas delas, na verdade, rejeitavam essa associação. E nem toda a extrema direita francesa foi atraída pelas ligas. Como em toda parte, os limites entre a direita conservadora e a extremista eram tênues. O movimento perdeu força. A mão estabilizadora de Poincaré e a sensação de segurança restabelecida entre as classes proprietárias desarmou a crise. As ligas perderam apoio — pelo menos por algum tempo. Com o conservadorismo dominando, a sensação de necessidade de uma extrema direita diminuiu. Mas não desapareceu. Numa nova crise — mais prolongada, mais desestabilizante, mais perigosa —, a ameaça da extrema direita poderia voltar, de forma mais intensa, a pôr em perigo a república francesa.

Pág. 164

Na Alemanha dos “anos dourados” do fim da década de 1920, não parecia haver motivo de inquietação. O crescimento econômico era firme. Os padrões de vida estavam melhorando. O país passou a fazer parte da Liga das Nações. As fronteiras ocidentais tinham sido fixadas em Locarno. Quatro mudanças de governo entre 1925 e 1927 não afetaram a sensação de que, depois do período de inquietação no início da década, a democracia estava instalada. Os extremismos políticos tinham perdido apoio. A base de sustentação do comunismo caíra para 9% em 1924, com o correspondente aumento de votos para os sociais-democratas moderados. A extrema direita, embora fragmentada depois da frustrada tentativa de golpe empreendida por Hitler em novembro de 1923, permanecia viva nos setores mais marginais da política — ao sair da prisão, no ano seguinte, ele refundara seu Partido Nazista. Na opinião de um observador em 1927, este não passava de “uma dissidência incapaz de exercer influência digna de nota sobre a grande massa da população e sobre o curso dos acontecimentos políticos”.

Pág. 170/171

Com os preços dos produtos agrícolas no chão, as torneiras de crédito secas e as taxas de juros nas alturas, a insolvência reduziu muita gente à penúria. As propriedades agrícolas eram vendidas ou iam a leilão. Na Baviera, as vendas forçadas de propriedades entre 1931 e 1932, por exemplo, chegaram a mais de 50%. Os trabalhadores agrícolas lutavam para conseguir trabalho. Pequenos proprietários se mantinham com a agricultura de subsistência. Às vezes, tratava-se de sobrevivência em sentido estrito. As famílias de um vilarejo pobre no sul da França ficaram reduzidas a uma única refeição diária, composta apenas de castanhas, azeitonas, rabanetes e alguma verdura que não conseguiam vender. Compreensivelmente, esses camponeses da França e de muitas outras partes da Europa dirigiam seu ódio a qualquer alvo que acreditassem culpado de seu infortúnio — o Estado, os burocratas, a gente da cidade, agiotas, estrangeiros, judeus —, alimentando o radicalismo da extrema direita.

Pág. 175/176

O desastroso agravamento da situação econômica radicalizou não apenas o pensamento social, mas a ação política em toda a Europa. À medida que as tensões de classe se aguçavam, aprofundava-se a polarização política. A esquerda, que em muitos países estava dividida entre socialistas mais moderados e partidos comunistas alinhados com Moscou, mutuamente antagônicos, procurava, quase sempre em vão, evitar a deterioração drástica no padrão de vida da classe trabalhadora. A militância na esquerda era, em boa medida, também uma resposta aos perigos de uma maré montante de movimentos extremistas de direita e antissocialistas. Em quase todos os países fora da União Soviética, a Depressão trouxe um surto de apoio a movimentos fascistas que pretendiam destruir a esquerda e reorganizar as sociedades por meio de uma unidade nacional artificial e forçada. Quanto mais abrangente a crise, maior a probabilidade de mobilização de amplos setores da população pela extrema direita. A crise era mais generalizada na Alemanha; portanto, não surpreende que a reação no país fosse mais extrema do que em qualquer outro lugar da Europa.

Pág. 183/184

A Inglaterra aderiu firmemente à ortodoxia financeira que tinha como objetivo o equilíbrio orçamentário. As teorias que pregavam o combate à Depressão por métodos heterodoxos de financiamento deficitário ainda estavam engatinhando. Keynes, que pouco depois da quebra da bolsa fizera uma constrangedora previsão de que não haveria consequências graves para Londres e que “achamos o futuro decididamente animador”, ainda não concluíra sua teoria econômica anticíclica. Quando a Depressão se instalou, o mais ambicioso esquema de planejamento econômico mediante empréstimo para financiar o crescimento veio de Oswald Mosley, em quem a ambição política, a impaciência e o descompromisso eram tão notáveis quanto sua indiscutível capacidade. Mosley, de formação aristocrática, a princípio era um conservador. Desencantado com os conservadores, saiu do partido no começo da década de 1920 para tornar-se membro independente do Parlamento antes de entrar para o Partido Trabalhista. Suas posições sobre política econômica e social eram claramente de esquerda. Quando suas ideias sobre a estimulação da economia mediante financiamento deficitário foram rejeitadas sem contemplação, ele provocou uma secessão no Partido Trabalhista e criou o Partido Novo. E, quando o Partido Novo fracassou na eleição geral de 1931, em que não teve votação significativa, ele passou para a extrema direita, expressando abertamente sua admiração por Mussolini. Fundou a União Britânica dos Fascistas em 1932 e assim empreendeu o caminho para o ostracismo político.

Pág. 191/192

A atração do fascismo Alguns movimentos da extrema direita radical copiavam abertamente os métodos, os símbolos e o léxico usados pelos seguidores de Mussolini e Hitler, e se autointitulavam “fascistas” ou “nacionalsocialistas” com orgulho. Outros aceitavam algumas ou muitas das ideias dos movimentos, mas negavam-se a usar o rótulo. A questão é basicamente de definição — e tentar definir fascismo é como tentar pregar gelatina na parede. Cada um dos numerosos movimentos de extrema direita tinha suas características e suas ênfases. E, como cada um deles se dizia representante “verdadeiro”, “real” ou “essencial” de uma nação e baseava grande parte de seu apelo ultranacionalista na suposta singularidade dela, não podia haver uma organização internacional autêntica que representasse para a direita radical um equivalente do que a Comintern era para a esquerda. Em dezembro de 1934, uma reunião de representantes da extrema direita de treze países (Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Irlanda, Lituânia, Noruega, Países Baixos, Portugal, Romênia e Suíça), realizada às margens do lago Léman, tentou estabelecer um contexto para uma ação colaborativa, porém o país mais importante, a Alemanha nazista, boicotou o encontro — que nem sequer foi capaz de entrar em acordo sobre uma base doutrinária comum.

Pág. 192

Não obstante, existiam algumas características ideológicas comuns aos movimentos de extrema direita, fossem autointitulados “fascistas” ou não: a ênfase ultranacionalista na unidade da nação, que ganhava sua própria identidade por meio da “limpeza”, eliminando todos os que não pertencessem a ela — estrangeiros, minorias étnicas, “indesejáveis”; exclusão racial (embora não necessariamente racismo biológico como na variante nazista), expressa na reiteração da qualidade “especial”, “singular” e “superior” da nação; compromisso radical, extremo e violento com a destruição absoluta dos inimigos políticos (especialmente marxistas, mas também liberais, democratas e “reacionários”); comportamento calcado na disciplina, na “virilidade” e no militarismo (normalmente envolvendo organizações paramilitares); e crença numa liderança autoritária. Outros traços foram importantes, até mesmo centrais, para a ideologia de algum movimento específico, mas não onipresentes. Alguns países orientaram seu nacionalismo para objetivos irredentistas ou imperialistas, com consequências desastrosas, mas nem todos eram intrinsecamente expansionistas. Alguns ainda, embora não todos, tinham forte tendência anticapitalista. Com frequência, mas nem sempre, defendiam a reorganização da economia segundo uma orientação corporativista, a abolição dos sindicatos e a regulação da política econômica por “corporações” de interesses, dirigidas pelo Estado.

Pág. 192/193

A exatidão acadêmica da terminologia é uma questão absolutamente indiferente tanto para os que sofreram nas mãos da extrema direita como para os que, sendo de esquerda, fizeram decidida oposição aos movimentos que eles mesmos não hesitavam em chamar de “fascistas”. Naturalmente, os requintes da precisão semântica não devem obscurecer a questão maior da guinada para a direita — em qualquer de suas formas — durante a Depressão.

Pág. 196

A força do conservadorismo bloqueou qualquer possível abertura para a extrema direita. A União Britânica de Fascistas (buf), de Oswald Mosley, fundada em 1932, nunca teve chance de se disseminar. A essa altura, tinha cerca de 50 mil membros, uma clientela variada de profissionais liberais de classe média, insatisfeitos, ex-soldados, pequenos empresários, comerciantes, funcionários de escritório e trabalhadores sem qualificação de algumas áreas decadentes da Inglaterra e do East End de Londres (área pobre tradicionalmente, ocupada por imigrantes, onde vivia um terço da população judaica do país). O estilo da buf mais parecia uma tosca imitação importada. As camisas pretas dos fascistas, as marchas, a ação política e a iconografia, para não falar da revoltante violência pública contra judeus e opositores políticos, não combinavam com a cultura política britânica. Confrontos com a esquerda antifascista causavam perturbações cada vez maiores na ordem pública. Seu apoio — inclusive o de Lord Rothermere, dono do muito lido jornal The Daily Mail — desabou depois que uma grande passeata, realizada em Londres em junho de 1934, foi acompanhada de uma brutalidade repulsiva contra os opositores de Mosley, infiltrados às centenas na multidão de 15 mil manifestantes. Mosley tinha tanta certeza da humilhação eleitoral que seu partido sofreria que a buf nem sequer concorreu à eleição de 1935. Em outubro daquele ano, os membros da organização já não passavam de 5 mil, e ela só se recuperou lentamente às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando chegou a 22,5 mil membros. Quando da eclosão do conflito, Mosley e outros líderes da buf foram presos, e o partido foi dissolvido. A União Britânica de Fascistas representou uma ameaça para aqueles que seus membros consideravam inimigos raciais ou políticos e um considerável incômodo para a ordem pública, mas seu impacto sobre a política institucional britânica foi mínimo.

Pág. 197/198

Nos Países Baixos, apesar do desemprego de 35% em 1936, a direita radical conseguiu pouca inserção nas estruturas políticas, que permaneceram solidamente vinculadas às subculturas protestante, católica e social-democrata. Os governos mudavam, mas na verdade existia uma continuidade na burocracia, e muita adaptação prática e concessões entre os partidos governantes. O medo cada vez maior da Alemanha nazista contribuiu também para uma ideia de unidade nacional que ajudou a manter a coesão do sistema parlamentar em vigor. O fascismo era visto como “estrangeiro” e como uma ameaça nacional. O ponto alto do principal movimento fascista, o Nationaal Socialistische Beweging, foi alcançado em 1935, quando obteve 8% dos votos. Mas em dois anos esse percentual caiu para 4%, e o apoio à extrema direita continuou em baixa durante o que restava do período anterior à guerra.

A Bélgica testemunhou uma breve lufada de apoio a um movimento corporativista católico e autoritário que beirava o fascismo. Em 1936, o Partido Rex (que tomou o nome de uma editora católica chamada Christus Rex, por sua vez assim chamada por causa da recém-instituída festa de Cristo Rei) conquistou 11,5% dos votos — em boa medida como protesto das classes médias de língua francesa nas partes industrializadas do sudeste do país contra a corrupção dos partidos convencionais. Mas esse eleitorado em pouco tempo encolheu, restando dele apenas uns poucos adeptos. Da mesma forma que nos Países Baixos, as forças tradicionais do meio social e político — católicos, socialistas e liberais — preencheram o espaço que os novos movimentos de extrema direita poderiam ter ocupado. Na Bélgica, a inexistência de um nacionalismo genuinamente belga era também um obstáculo. O Rex tinha uns poucos adeptos em Flandres, onde havia movimentos
nacionalistas e protofascistas (embora sem apoio majoritário).

Durante algum tempo, considerou-se que a Terceira República na França podia estar seriamente ameaçada pela extrema direita. O sistema político não dava ensejo a mudanças frequentes de governo (que quase sempre se resumiam a uma dança das cadeiras, com as mesmas pessoas em torno da mesa do gabinete), mas sim a alianças pragmáticas variadas entre os partidos. Essas alianças quase sempre incluíam os radicais, que constituíam o partido central da república. Os radicais eram anticlericais, defendiam princípios econômicos liberais, apoiavam-se firmemente nas classes médias e se dispunham a acordos com facções moderadas da direita ou da esquerda com intuito de permanecer no poder (o que geralmente acontecia). Nas eleições de 1932, quando a Depressão ainda estava se instalando, o Partido Socialista e os radicais, numa incômoda aliança de esquerda moderada, tiveram ganhos importantes. A derrota do bloco direitista integrado pelos partidos conservadores desencadeou uma reação exagerada da direita, num clima de xenofobia, acentuado nacionalismo, antissemitismo, antifeminismo e medo da “ameaça vermelha” (embora os comunistas só tivessem obtido doze das 605 cadeiras na Câmara dos Deputados). O clima de agitação foi exacerbado pelos acontecimentos dramáticos do outro lado do Reno. As Ligas — organizações paramilitares e extraparlamentares da direita nacionalista, formadas por grandes associações de veteranos, algumas delas com pelo menos algumas características fascistas — ganharam novo fôlego depois do declínio sofrido durante a estabilização financeira no governo de Poincaré.

Pág. 202

Campo fértil para a direita: A Europa Central e a Oriental

A Espanha era um caso excepcional na Europa Ocidental. No centro e no leste do continente, a guinada para a extrema direita era o lugar-comum. Os maiores movimentos fascistas surgiram na Áustria, na Romênia e na Hungria. Para a Áustria, a chegada de Hitler ao poder na vizinha Alemanha foi um acontecimento determinante. Na Romênia e na Hungria, a turbulência persistente que decorreu dos ajustes territoriais do pós-guerra foi um pré-requisito de peso. Grande parte dos que não simpatizavam com o socialismo na Áustria já eram protofascistas à época da Depressão. O colapso do sistema financeiro em 1931 e o desemprego galopante minaram a economia do país e as condições de vida de grande parte da população. Sob o impacto da Depressão, a divisão da política austríaca em três setores se aprofundou e radicalizou. Dois grandes movimentos fascistas, o Heimwehr [Defesa da Pátria], de origem local, e o Partido Nazista da Áustria, inspirado nos acontecimentos da vizinha Alemanha e em franco crescimento, defrontavam-se com um grande Partido Socialista que mantinha o sólido apoio da classe de trabalhadores industriais. Em 1930, os seguidores do Heimwehr eram duas vezes mais numerosos que os do Partido Nazista da Áustria, que muitos viam como uma versão local de uma organização estrangeira. Mas os nazistas vinham ganhando terreno com rapidez. Nas eleições regionais e municipais de 1932, conseguiram 16% dos votos.

Pág. 204

Na Hungria, onde os graves ressentimentos irredentistas gerados pelas perdas territoriais determinadas pelos acordos do pós-guerra ainda eram uma ferida aberta, a Depressão, que trouxe uma queda vertiginosa na produção agrícola e desemprego para um terço da força de trabalho industrial, exacerbou as tensões sociais e políticas. No entanto, principalmente entre 1932 e 1936, durante o governo do primeiro-ministro Gyula Gömbös, cujas inclinações para a extrema direita dividiram e desarmaram por algum tempo as pequenas forças fascistas, as elites governantes, depois de reconquistar sua força com a restauração conservadora da década de 1920, conseguiram controlar e manipular o Parlamento e se adaptar à administração da crise, de modo que nenhum grande partido fascista surgiu até 1937. A fragilidade da esquerda socialista, que nunca se recuperou do massacre a que foi submetida depois do colapso do regime de Béla Kun em 1919, e a limitada participação das massas nos anos seguintes na democracia de fachada do regime autoritário de Miklós Horthy desempenharam seu papel em reduzir as chances de uma mobilização fascista. Só a partir de 1937, por influência do que acontecia na Alemanha e pelas rápidas mudanças no horizonte da política internacional, surgiu um movimento fascista de grandes proporções. O Partido Nacional Socialista da Hungria — amálgama de oito grupos nacionalistas extremistas — nasceu do Partido da Vontade Nacional, fundado pelo oficial da reserva Ferenz Szálasi em 1935, e em 1939 assumiu o nome de Partido da Cruz Flechada. Começou a recrutar apoio com sucesso entre profissionais do setor público, oficiais do Exército e trabalhadores das áreas industriais de Budapeste, chegando a 250 mil membros em 1939-40. O breve momento de glória da Cruz Flechada — embora tenha sido de horror para suas vítimas — viria mais tarde, durante a guerra, com a Hungria sob domínio alemão e a derrota cada vez mais próxima.

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O sentimento antibelicista na esquerda alemã contrastava com o militarismo escancarado e a exaltação da guerra na extrema direita. Na década de 1920, a popularidade de Tempestades de aço, livro de memórias de Ernst Jünger que glorificava a guerra, já dera uma indicação clara do quanto a população alemã se achava dividida em relação à Primeira Guerra Mundial. Não foi surpresa, portanto, que Nada de novo no front enfurecesse a direita, principalmente os membros de seu incipiente grupo de vanguarda, o Partido Nazista. Ao ser distribuído na Alemanha, em dezembro de 1930, o filme americano baseado no romance provocou tamanha chuva de protestos por parte da direita, encabeçada pelos nazistas, que o consideraram um insulto à honra alemã, que as projeções públicas foram proibidas por “colocar em perigo a reputação internacional da Alemanha” e por “menosprezo ao Exército”.

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Uma falsa alvorada na França
Em meio à derrocada da esquerda na Europa, uma eleição em particular trouxe um raio de esperança. O resultado da eleição geral na França, em 1936, pareceu um triunfo para o antifascismo, uma reviravolta, enfim, naquilo que durante anos tinha sido a tendência rumo à extrema direita militante em todo o continente. Terminada a apuração dos votos do segundo turno, em 3 de maio de 1936 (o primeiro fora uma semana antes, em 26 de abril), a Frente Popular de Socialistas, Comunistas e Radicais obteve uma vitória assombrosa, ficando com 376 cadeiras, muito mais que as 222 da Frente Nacional, de direita. Foi imensa a euforia por parte dos eleitores da esquerda — principalmente trabalhadores, mas também a maioria dos intelectuais, escritores e artistas. Manes Sperber era um escritor judeu, nascido em 1905 na Polônia, mas exilado em Paris desde sua breve experiência na prisão na Alemanha, em 1933, e membro do Partido Comunista, do qual foi se tornando cada vez mais crítico até abandoná-lo em 1937. Mais tarde, escreveu a respeito
de sua empolgação com o resultado do pleito. Para ele, e para muitos outros, foi mais do que uma vitória eleitoral. Foi como uma lufada de vento fresco a arejar um ambiente abafado. Uma meta durante longo tempo vista como impossível parecia alcançável. “Nunca a fraternidade se divisou tão próxima como naquele maio de 1936”, escreveu Sperber. “Vindos de todas as direções, homens, mulheres e crianças acorriam às praças da Bastilha e da nação”, com suas canções e brados de alegria chegando às ruas vizinhas, convocando todos para se unir na busca de justiça e liberdade, e tudo sem recorrer à violência revolucionária. Não tardou para que as esperanças humanitárias de Sperber se mostrassem um sonho de desvairado otimismo.

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A França continuou dividida de alto a baixo. O ódio da direita nacionalista à Frente Popular ia muito além da oposição política convencional. A fúria maior se voltava contra Léon Blum, intelectual judeu que fora um dos primeiros defensores de Dreyfus. Blum tinha sido agredido fisicamente por uma horda nacionalista em fevereiro de 1936. No ano anterior, Charles Maurras, líder da Action Française, de extrema direita, denunciara Blum, de forma chocante, como “um homem a ser baleado — pelas costas”. O triunfo eleitoral da esquerda não diminuiu a polarização ideológica na França. Na realidade, a vitória fora muito menos contundente do que parecera à primeira vista. A votação da esquerda, de 37,3%, tinha sido apenas um pouco superior aos 35,9% obtidos pela direita. A principal mudança se dera no seio da própria esquerda, o que só fez aumentar o antagonismo da direita. Os radicais, do principal bloco centrista da república, perderam terreno, caindo de 157 cadeiras em 1932 para apenas 106 em 1936. Os socialistas, grupo majoritário na Frente Popular, tinham passado de 131 para 147 cadeiras. Pequenos partidos de esquerda obtiveram em conjunto 51 cadeiras, catorze a mais que em 1932. O que mais preocupava a direita era o fato de os comunistas terem sido os mais beneficiados: haviam saltado de dez para 72 cadeiras.

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Entre suas promessas eleitorais estava a adoção de um programa de obras públicas (que assinalava o fim da política econômica deflacionária), a redução da semana de trabalho, a instituição de pensões de aposentadoria e a criação de um fundo de desemprego. Como reflexo do forte clima antifascista, as entidades paramilitares seriam postas na ilegalidade. Entretanto, evitaram-se medidas radicais capazes de amedrontar as classes médias. A revolução social teria de esperar. Os socialistas puseram de lado o desejo de estatizar a economia; os comunistas não fizeram referência a sovietes ou coletivos camponeses. A cúpula administrativa do Banque de France seria ampliada para acabar com o controle exercido por uma oligarquia fechada de acionistas, mas o banco não foi estatizado. O valor do franco deveria ser mantido — para tranquilizar a classe média, que perdera suas poupanças no governo anterior de coalizão esquerdista —, embora isso logo tenha se revelado um compromisso imprudente. Garantiu-se o direito das mulheres ao trabalho, mas, na ânsia de evitar a abertura do debate sobre uma possível reforma da constituição (defendida por grande parte da extrema direita), não se fez menção alguma a seu direito ao voto.

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A enorme onda de greves fez com que os empregadores abrissem bem os olhos. Numa única tarde, em 7 de junho, numa reunião na residência do primeiro-ministro, no Hôtel Matignon, eles atenderam às principais exigências dos sindicatos, e as relações trabalhistas transformaram-se de um dia para o outro. Aprovaram-se o direito à sindicalização, a negociação coletiva de contratos de trabalho, a representação dos trabalhadores e a proscrição de medidas punitivas contra grevistas, além de aumentos salariais da ordem de 15%. Em poucos dias tornaram-se lei a semana de trabalho de quarenta horas e as férias remuneradas anuais de duas semanas (o que, com o apoio de passagens de trens a baixo custo, deu início ao êxodo de verão, de Paris e outras cidades, o que se tornou um aspecto permanente da vida social francesa). Aos poucos, as greves diminuíram. O dilúvio de novas leis prosseguiu com a proibição de ligas paramilitares, em 18 de junho, o que reduziu a desordem política e a violência nas ruas (apesar de levar setores da extrema direita à clandestinidade). Outras leis instituíram a reforma do Banque de France, elevaram para catorze anos a idade mínima para sair da escola, nacionalizaram as indústrias de armamentos e apaziguaram os agricultores ao aumentar os preços dos cereais. Criou-se o Ministério dos Desportos e do Lazer, que tinha como meta democratizar o acesso a atividades recreativas ao ar livre (uma reação à militarização desse setor nas organizações fascistas), oferecer formas atraentes de distração à classe trabalhadora e melhorar a saúde pública. O resultado foi o estímulo ao ciclismo, às caminhadas, aos albergues para a juventude e ao turismo popular, a melhoria das instalações esportivas e o fomento do interesse pelos esportes e sua prática. De modo geral, foi notável o alcance da intervenção realizada pelo governo da Frente Popular em tão pouco tempo.

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Ao desprezo pelo fascismo e à obstinada rejeição pelo eleitorado dos grupos conservadores, que no passado haviam se consorciado com a extrema direita, somava-se o desejo de amplas reformas sociais e econômicas da espécie que, acreditava-se, só a esquerda poderia proporcionar. Nos países escandinavos, onde a guerra fora menos destrutiva (embora a Noruega tivesse perdido 20% de sua infraestrutura econômica), a esquerda social-democrata pôde consolidar a base de poder constituída antes do conflito e introduzir reformas importantes e duradouras na previdência social. Na Dinamarca, os sociais-democratas, de início um pouco prejudicados por sua participação no governo colaboracionista durante a guerra, logo recuperaram as perdas sofridas para os comunistas. A social-democracia fortaleceu-se na Noruega, favorecida por seu envolvimento na resistência, e se manteve forte na Suécia. Na pequena Islândia, um dos raros países europeus que prosperaram na guerra e que se tornara independente da Dinamarca em 1944, os social-democratas continuaram a perder para o Partido Comunista de Unidade Popular. Ambos, porém, uniram-se ao Partido da Independência, conservador, numa coalizão que, extraordinariamente, enfrentou poucas discórdias para modernizar o país e melhorar o padrão de vida, mediante o apoio à frota pesqueira. Na Escandinávia, a guerra interrompeu, mas não destruiu as estruturas políticas ou os programas de reforma econômica e social.

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Por mais precários e insuficientes que tenham sido os expurgos dos colaboracionistas e dos culpados dos piores crimes de guerra, foram medidas que proporcionaram certa dose de catarse às vítimas do nazismo e do colaboracionismo, além de mostrar que os métodos violentos da extrema direita não teriam mais como envenenar as sociedades como acontecera depois de 1918. Um elemento crucial da instabilidade política do entreguerras havia praticamente desaparecido. As mudanças de fronteiras e as transferências de populações na Europa Oriental, embora realizadas à custa de muito sangue, geraram uma homogeneidade étnica muito maior à que tinha se registrado no entreguerras, o que também contribuiu para a pacificação da metade oriental do continente, muito embora sob a mão pesada da repressão soviética.

Notas
(Depois verei se é possível colocar todas as notas, pois ficam no fim do livro e parecem não estar organizadas, e são muitas)

|***| Nazismo de esquerda? O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita - Parte 02

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

'Liberalização' da esquerda e crescimento da Extrema-direita

Este texto saiu originalmente no site Sputnik (em inglês: How the Liberalization of the Left Led to the Rise of the Far-Right) e mostra um dos motivos do caos atual em várias partes do mundo (Europa principalmente, ou mais especificamente o Reino Unido) e como a esquerda capitulou pra grupos considerados mais radicais (à direita). O texto fala sobre um livro que comenta as razões pra certa extrema-direita ter ganho força no Reino Unido e como a esquerda britânica afundou (só que o caso é ilustrativo também pro resto da Europa, Brasil etc).

A resposta sobre o surgimento do caos aparenta ser quase sempre a mesma: o neoliberalismo, ou como esta ideologia adentrou nas esquerdas (na Europa isso é bem visível, no Brasil idem) e implodiu a "coisa toda" por dentro (até com a capacidade de se opor à agenda neoliberal), porque no começo ela era exclusiva da direita. Leiam o texto abaixo e tirem suas próprias conclusões. O texto chegou a mim através de terceiros, então os créditos dos sites ficam no final (de onde li primeiramente, do site do Luís Nassif). Caso alguém (que leu o texto) encontre algum erro na tradução, favor avisar, caso eu não corrija antes).

E já me antecipando caso algum "desavisado" venha com a pergunta clássica de sempre: "o que isso tem a ver com Holocausto, segunda guerra etc?". O blog trata também da questão da extrema-direita, e isso não está isolado do caos que se passa hoje no Brasil e no resto do mundo, não há uma "só direita" agindo no mundo de forma homogênea, ela tem suas vertentes como a esquerda também. Fora que o fenômeno de ascensão de certa extrema-direita, provocado pelo neoliberalismo depois da queda da URSS, é algo real, não existe fenômeno isolado como "negação do Holocausto" e afins separados dessas coisas. Quem quiser ficar em uma bolha sem conectar os problemas e causas, fique por sua conta e risco. Essas questões era algo que sempre criticava naqueles conclusões banais que muita gente fazia sobre esses assuntos (como "propagação de neonazis na Europa", "as causas") quando as comunidades do Orkut ainda existiam. Achavam que era algo "marginal" ao sistema e nunca foi.

Muita gente só olhou pros negacionistas negligenciando o outro problema: o extremismo liberal, o mesmo que ajudou a parir o fascismo com a Europa destruída após a Primeira guerra mundial. Extremismo como o dessa corja liberal que solapou o país na era FHC e agora destrói tudo de novo com o golpe de estado de 2016, vide o que se passa no Brasil atualmente, o desmonte do Estado brasileiro tocado a "toque de caixa" pra aniquilar o país como nação ou qualquer bem-estar social da maioria da população, o que tornará o país terreno fértil pra todo tipo de "discurso salvacionista" demagógico, principalmente do bando entreguista. Extremismo liberal do qual partidecos "radicaloides" (inofensivos ao entreguismo) como PSOL e PSTU fazem parte, mesmo se dizendo "contrários" a isso.

Parece que com o aprofundamento do golpe o discurso mentiroso e demagogo do bando golpista (corrupto, vira-lata e entreguista) virou fumaça, eu sabia que isso iria acontecer, só não tinha ideia do tempo que iria levar pra "ficha cair" pra boa parte do país (já é um começo, mas é necessário ir além disso se quiserem ainda ter algum país de pé, a coisa é bem séria).

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'Liberalização' da esquerda e crescimento da extrema direita
03/02/2017, Neil Clark, SputnikNews


No brilhante livro que acabam de publicar(ing.) The Rise of the Right, [A Ascensão da Direita]* três criminologistas de renome Simon Winlow, Steve Hall e James Treadwell, dedicam-se a explicar o crescimento do nacionalismo de direita na Inglaterra.

Embora o livro se dedique principalmente à sociedade e à política inglesas, há ali lições valiosas para todos os leitores nos EUA e também no resto da Europa. De fato, posso até dizer que se a esquerda ocidental não ouvir com atenção o que Winlow et al têm a dizer, pode acontecer de ela ser varrida do palco para sempre.

A situação é realmente, muito, muito grave.

'O Horizonte Capitalista'

O problema básico identificado pelos autores é que a esquerda, que outrora punha as preocupações da vida diária dos trabalhadores no ponto central chave de seu programa, virou liberal.

Com o neoliberalismo tornando-se hegemônico, os principais partidos da esquerda e seus representantes tiraram os olhos da reforma econômica e passaram a combater 'guerras culturais'. Propriedade pública e o compromisso com igualitarismo genuíno saíram da pauta – e as políticas das identidades entraram. A conversa passou a ser só "tolerar" e "tolerar". Ninguém mais deu atenção à exploração e aos explorados.

"A esquerda perdeu o interesse no campo tradicional da economia política, e em vez dela, inaugurou novos teatros de conflito no campo da cultura. Falando em termos gerais, a esquerda aceitou o horizonte capitalista" – explicam Winlow et al. [BINGO! (NTs)]

A vida política na Grã-Bretanha tornou-se estéril, com Trabalhistas e Conservadores convergindo para promoverem uma agenda pró-capitalista, economicamente e socialmente liberal. A classe trabalhadora foi excluída desse consenso novo, aprovado na City, em Londres.

Nas eleições gerais de 2001, obrigados a escolher entre Tweedledum Tony Blair e Tweedledee William Hague, só 59% das pessoas deram-se o trabalho de sair para votar. Compare esse nível de engajamento e os 83,9% de comparecimento às urnas, em 1950. Mas naquele tempo, a classe trabalhadora estava adequadamente representada.


Os autores de Ascensão da Direita destacam que, embora a "dominação da classe trabalhadora pelo pensamento e pela política da classe média liberal não seja novidade" – basta pensar no papel que os Fabianos tiveram na história dos primeiros anos do Partido Trabalhista —, as coisas pioraram muitíssimo na era do pós-socialdemocracia.

Demonização do Socialismo

O ex-carpinteiro Eric Heffer, que morreu em 1991, é citado como "um dos últimos pesos pesados honestos e confrontacionais, classe-trabalhadora autênticos, que houve no Partido Trabalhista." Os autores explicam o modo como a CIA desempenhou o papel que lhe coube na destruição de toda a genuína esquerda socialista — como se lê no livro de H. Wilford, The CIA, the British Left and the Cold War: Calling the Tune?, citado no capítulo 3:

"Central nesse processo foi abandonarem a classe e voltarem-se para linguagem, identidade cultural e movimentos sociais (...) O hábito norte-americano liberal-progressivista de demonizar o socialismo, falando dele sempre no mesmo parágrafo em que falam do fascismo, foi importado para a Europa para garantir apoio mais sutil e mais atraente ao programa de demonização de que a direita conservadora passou a fazer meio de vida."

A CIA conseguiu exatamente o que queria.

Na era do neoliberalismo hegemônico, quem ouse desafiar a direita liberal, de um ponto de vista socialista, pode contar com ser denunciado/a pelos guardiões do Establishment como "Stalinista" ou, até, "de extrema direita." Até advogar um retorno às políticas econômicas muito mais justas de 1945-79 é visto como perigoso e absolutamente 'sem noção'.

A mídia-empresa 'liberal'

De volta aos anos 70s? Quando o fosso entre ricos e pobres na Grã-Bretanha foi o menor em toda a história, e o país ainda contava com uma base de manufatura — oh... você deve estar doido! Os parâmetros aceitáveis para o debate são hoje desesperadamente rasos, com a mídia-empresa "liberal" encarregada de manter todas as soluções alternativas, que beneficiariam as maiorias, "fora da conversa"

"A mídia-empresa liberal de direita e liberal de esquerda diferenciam-se porque têm ideias diferentes sobre Estado de Bem-Estar, multiculturalismo e impostos, mas é só pressentirem 'perigo', remoto que seja, de acontecer um retorno de qualquer coisa que se assemelhe a real política de esquerda... toda a mídia-empresa imediatamente se reúne e se apresenta como uma só voz" – dizem os autores.

Não pode portanto surpreender ninguém que, com as suas vozes persistentemente ignoradas pelos que antes se diziam seus representantes, a classe trabalhadora britânica tenha procurado outras vias?

A metade final de The Rise of the Right inclui entrevistas com trabalhadores e trabalhadoras que apoiam grupos de extrema direita como a English Defence League (EDL) [Liga Inglesa de Defesa]. Aqui fala Steppy, 39 anos, sobre por que não vota com os Trabalhistas:

Ascensão da Extrema Direita

"Aqueles brancos vagabundos (...) Tomaram conta do Partido Trabalhista. Estão tomando conta de tudo, por toda parte. E vejam o que estão fazendo. Primeira coisa, pegam os empregos dos patrões. Viram patrão e arranjam emprego para os amigos. Suas feministas são gente dessa raça. Falam de democracia, mas não há democracia aqui. Não nesse país…"

O preconceito antimuçulmanos é disseminado entre os entrevistados.

Islamofobia cresce na Europa. Tuítos ofensivos alcançam o mais alto ponto de disseminação de todos os tempos.

Muçulmanos converteram-se em bodes expiatórios para a ira, a frustração e a alienação que caracteriza a Liga EDL e outros grupos de extrema direita.

Mas o grande problema, como os autores demonstram, tem sido o sistema econômico voraz sob o qual vivemos, que é adversário absoluto dos melhores interesses das maiorias. O neoliberalismo destruiu completamente comunidades inteiras de trabalhadores, e o espírito de solidariedade que havia. Toda a solidão, toda a ansiedade foram criadas pelo neoliberalismo.

Tony, como vários outros entrevistados recordam com nostalgia a Grã-Bretanha de 40 anos passados:
"Tudo era muito melhor (...) Para pessoas como eu era muito melhor. Nos divertíamos na escola e, ora, tudo simplesmente parecia funcionar direito. Havia empregos. Todos trabalhavam. As pessoas viviam juntas."
De volta ao começo do jogo

Em vez de ouvir a trabalhadores como Tony, muitos representantes políticos da "esquerda" preferem seguir o mote ditado pelos colunistas da mídia "liberal" de classe média, e focar questões que aqueles colunistas daquela mídia creiam que seriam mas 'mais urgentes'. Se alguém ainda espera deter o crescimento da extrema direita, é preciso acabar com esse relacionamento doentio com a mídia-empresa.

No capítulo oito do livro, os autores argumentam que a esquerda "tem de recomeçar do começo, outra vez":

"Para nós a esquerda hoje têm de voltar à classe trabalhadora. Quem deve vencer a luta por justiça social e econômica são os trabalhadores, é a classe trabalhadora. Liberais de classe média não podem (de fato, jamais sequer tentarão) vencer aquela luta, 'em nome' dos trabalhadores mais pobres."

Os autores dizem que os 'de esquerda' têm de se dar conta de que o que conhecem como "contraculturalismo 'de tendência'" foi erro de proporções colossais. Em seguida, têm de começar a desfazer o dano que causaram.

Não se trata de abandonar a cultura, mas de "devolvê-la ao seu lugar não dominante". A prioridade tem de ser a reforma econômica, e em especial, pôr fim à ditadura do capital financeiro. Um banco de investimento nacional público, a renacionalização de indústrias chaves e a volta dos empregos – empregos adequados, de trabalho que faça sentido, bem pago, com contratos de tempo integral para áreas que hoje estão convertidas em terra abandonada, são itens que têm de voltar ao topo da agenda dos trabalhistas.

A ascensão da extrema direita não é inevitável, nem é irreversível. Mas a esquerda está condenada para sempre, a menos que reaprenda a fazer campanha pelas questões arroz-com-feijão das classes trabalhadoras, e se separe bem claramente do pensamento da elite que dá apoio ao neoliberalismo. Se o líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn ainda não encomendou um exemplar de The Rise of the Right, sugiro que o faça logo, o mais depressa possível.*****

* The Rise of the Right, English Nationalism and the Transformation of Working-Class Politics— Simon Winlow, Steve Hall and James Treadwell, fevereiro, 2017, Policy Press.

Fonte:
Sputnik/jornal GGN (site Luís Nassif)/Blog do Alok (tradução: Coletivo Vila Vudu)
http://jornalggn.com.br/blog/almeida/liberalizacao-da-esquerda-e-crescimento-da-extrema-direita

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sobre a vitória de Trump nos EUA e o "jornalismo de torcida" histérico da Globo (e mídia nativa golpista). Análise sobre a crise interna nos EUA por James Petras (no link)

Acho que muita gente tem visto e se espantado com a "cobertura" raivosa, enviesada e histérica (terrorismo psicológico) feita pela Rede Globo (destaco essa sempre porque o resto da mídia no país sempre foi um "traço" seguindo a "agenda" que geralmente essa impõe) sobre as eleições nos EUA e mais sobre o pós-eleição naquele país, além da posse de Trump.

*A quem quiser ler logo a análise do Petras, este é o link (colocarei este link de novo, mais abaixo, dentro do contexto do post pois pode ser que mão queiram ler o post então leem a análise, que é bem relevante):
Pela primeira vez, Estados Unidos experimentam o golpismo ao estilo latino-americano

Só um adendo pertinente: mão temos mídia no Brasil, encare isso como algo sério e não retórico. Em um cenário desses os blogs (dependendo da qualidade, há centenas, milhares deles) prestam um serviço à população, mesmo que não haja reconhecimento de muitos disso, e inclusive "estrelismo" e "vista grossa" até de outros sites e blogs com alguns blogs de política e/ou história. O que temos de "mídia" razoável são lampejos na internet de sites que contrapõem essa "grande mídia", a "grande mídia" que só defende interesses econômicos dos setores mais ricos do país ou às vezes nem isso, pois a mesma faz uma defesa de entrega do patrimônio do país (entreguismo) a corporações privadas estrangeiras ou mesmo estatais estrangeiras, ataque a direitos trabalhistas (do povo) e todo tipo de patifaria contra a maior parte da população.

Aos que acham (ou achavam, tem muita gente que tinha "muitas certezas" nesses últimos anos e cada uma dessas "certezas" está vindo abaixo à medida que o governo golpista destrói de fato o país... se meter em briga política graúda sem entender o que se passa, dá nisso... da próxima, tenham mais cautela...) que o maior problema do país é a corrupção, tudo isso que relatei acima sobre a mídia e defesa de interesses de corporações ricas é a "mãe da corrupção" e dos grupos históricos corruptos do país, por isso que sempre fui cético e me manifestei contra àquelas manifestações falsas com camisas da CBF "em defesa do país" (entre aspas, não houve defesa alguma e sim entrega do controle do país ao que há de pior nele: a gangue do PSDB e a parte neoliberal do PMDB, braços políticos da Globo no congresso nacional). Não é exagero o que vou dizer: quem manda neste país desde a redemocratização (em 1985) é a Rede Globo, com um lampejo (uma "pausa" breve em que o carisma político de uma liderança abafava esse domínio televisivo da Globo) nos dois governos Lula, e para por aí.

Voltando ao tema inicial, a Rede Globo de Televisão (o grupo como um todo, pois abrange rádios, jornais, TV a cabo etc) sempre foi ideologicamente alinhada ao Partido Democrata dos EUA, pelo menos de forma mais destacada desde o golpe de 1964, o golpe que instaurou uma ditadura no país de 21 anos. Caso Time-Life/Globo [PDF] [Matéria].

Governo norte-americano participa do golpe militar no Brasil (EBC, Brasil)
Democracia Interrompida (EBC, Brasil)
Pouco antes de seu assassinato, Kennedy discutiu ação militar para tirar Jango da Presidência (Arquivos da ditadura, Brasil)
Filme revela como EUA deram o Golpe de 1964 (Conversa Afiada/IG, Brasil)
31 de Março de 1964: deflagrada a ‘Operação Brother Sam’ (Jornal GGN, Brasil)
O encontro entre o embaixador Lincoln Gordon e Roberto Marinho em 1965 (Jornal GGN, Brasil)

Entrevista exclusiva de Hillary Clinton a esta emissora
em seus estúdios em São Paulo (Brasil)
O golpe de 2016 no Brasil foi dado também em um governo Democrata nos EUA, e começa (pra valer) em 2013 com aqueles "levantes/marchas" malfadadas de 2013, que gerou e propagou essa instabilidade no país, colocando literalmente o país abaixo e no estado de "coma" atual. Estragou e eclipsou os dois eventos no país (a Copa e as Olimpíadas), depôs presidente democraticamente eleita, arrasou o PIB do país comprometendo-o por pelo menos 10 ou 20 anos e por aí segue o estrago.

Se você acha que não será atingido por esse desmonte do Estado, é questão de tempo chegar até a você, mas o estrago chegará. Nem se iluda de que sairá "ileso" de toda essa "lambança", quer por participação ou omissão.

A Globo é a cabeça principal do golpe de Estado civil de 2016, sem ela os outros grupos golpistas sequer teriam visibilidade ou força. A Operação Lava Jato (ou seria Vaza a Jato?) que sempre livrou a cara de tucanos (protegendo-os) só tem a força que tem graças a esta emissora blindando o "juiz principal" da mesma. Operação "Cavalo de Troia", que usa o "combate à corrupção" pra destruir empresas nacionais e milhares de empregos pra abrir mercado pra multinacionais estrangeiras, que praticarão corrupção igual ou pior, sendo que o dinheiro conseguido por essas empresas não ficará no país, o grosso será enviado pro país sede delas (gerando riqueza pra outros países, não pro povo brasileiro).

A Globo tinha crença absoluta que Hillary Clinton, ligada às forças mais belicistas e financistas dos EUA (o grupo neocon que fez a guerra no Iraque com W. Bush a apoiou na última eleição), venceria fácil as eleições nos EUA.

A Globo chegou a repetir na véspera da eleição dos EUA que "pesquisas davam como certa vitória de Clinton com 99%" (em seu canal fechado, GloboNews, que eu chamo "carinhosamente" de GolpeNews). Que é o que chamo ironicamente de "jornalismo de torcida", pois isso não é "jornalismo" e sim "torcida de futebol" (claque) distorcendo fatos pro lado que "torce" (levantando bandeira), não narrando os fatos de forma adequada mostrando os dois lados (ou quantos lados houver).

Pois bem: quem venceu a eleição? Donald Trump (risos).

Querem ver o descontrole (ou rever)? Isto aqui foi durante a campanha dos EUA, repórter da Globo com raiva de Trump se descontrola e solta um "put* que pariu" (é o novo "padrão Globo de qualidade", hahahaha).



A "cobertura" feita pela GloboNews (GolpeNews) sobre os EUA, desde então, tem sido disso pra baixo, torcida mesmo e ressentimento pela vitória do candidato republicano. Mas por quê tanto desespero com uma eleição em outro país? Abaixo você entenderá.

O que provoca mais confusão na questão é também a estupidez da direita nativa de internet (ou senso comum) chamando a Globo de "esquerda" por não apoiar Trump, sem entender a divisão política dos EUA e a do Brasil, sem entender o confronto ideológico de grupos antagônicos até mesmo dentro de um mesmo espectro político. Existe uma direita real, partidária, empresarial no país, e uma direita "trololó" caricata e raivosa (muito idiotizada, despolitizada, com discurso vazio e entreguista, com viés anti-nacional) composta por gente de classe média, com slogans moralistas e simplistas. Embora também haja grupos com esta mesma mentalidade e com poder, vide a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

A vitória de Trump provocou um surto de histeria na malta golpista (estou destacando a Globo, mas não foi a única, mas é mais surtada desde então, o panfleto da Editora golpista Abril, a Veja, também está descontrolada) que não conformada com o resultado passou a atacar o candidato republicano de todas as formas possíveis, achando que tem "poder" (pausa pro riso de novo, hahahaha) de interferir no cenário interno dos EUA com essa postura, deixando mais perplexa ainda a já tosca e confusa direita "trololó" UDN de classe média que apoiou o golpe no país como "manada" desta emissora.

Por que este descontrole/histeria ocorre na Globo?

Provavelmente porque a articulação do golpe de Estado de 2016 é/era totalmente ligada ao governo Obama, e pode ter sido desmontada ou está em vias de ser. Além do Brasil e América do Sul não serem prioridade ou não interessarem ao atual governo eleito dos EUA.

Sem alguma articulação externa (apoio, suporte) é difícil um golpe desse tipo vingar em um país de dimensões continentais (ou em qualquer país). Essa elite entreguista e bananeira do Brasil sempre foi ridícula e anti-nacional demais (a questão nacional na América do Sul difere da Europa) pra fazer algo dessa monta por "conta própria", posso estar sendo duro mas os acho estúpidos demais até pra executar um negócio desses por "conta própria", sem apoio externo, e o envolvimento dos Estados Unidos na política interna dos países da América Latina é conhecido e remonta até antes da segunda guerra.

Não existe golpe desse tipo sem apoio externo, sem isso a malta que deu o golpe fica totalmente à deriva.

Entenderam o descontrole da mídia e do governo golpista depois da eleição de Trump? Vem dessas questões.

O que relato acima não se trata de uma defesa de Trump, mas ele foi eleito de forma legítima, e não posso concordar com essa agenda golpista, antidemocrática, enganosa dessa emissora que sempre tentou pôr abaixo a soberania do país com ajuda ou cumplicidade de outros grupos fortes no país (e de fora). Como também é uma agenda não só dessa emissora como de grupos "controvertidos" que dizem "representar" minorias fora, mas que já vimos o filme por aqui no que deu (desde 2013, o saldo de desgraça ao redor do mundo, vide também as tais "Primaveras árabes").

Na posse de Trump apareceram finalmente os "Black Blocs" nos EUA, com o mesmo quebra-quebra que fizeram no Brasil, Egito e outros países. Parece que o mesmo núcleo do golpe está agora ocupado tentando implodir o governo dele nos EUA, de certa forma é algo inédito (é disso que trata um link que deixarei abaixo).

Gente como esse cidadão (George Soros), que à parte os devaneios de "grupos de teoria da conspiração", não vale absolutamente nada mesmo, andou dando declarações terríveis. Uma declaração dessas é coisa típica de quem não tem apreço algum à democracia ou países e só a interesses privados:
Soros. Donald Trump “é um aspirante a ditador” e “vai cair” (Observador, Portugal)
Soros: Trump “é um aspirante a ditador” e “vai cair” (Jornal Económico, Portugal)
George Soros: Theresa May won't last and Trump is 'would-be dictator' (The Guardian, Reino Unido)
George Soros: Donald Trump 'will fail' and Theresa May's Brexit could 'last three days' (The Independent, Reino Unido)

Se quer entender um pouco mais da "fúria" dele com a vitória de Trump, dê uma lida:
Soros perdeu quase US$ 1 bilhão após eleição de Donald Trump

Quer saber das ligações de Soros com o Brasil e o narco-partido (PSDB)? Dê uma lida pra recobrar a memória (brasileiro é ruim de 'memória', por isso que sempre é enrolado):
Armínio Fraga: 'guru anticrise' ou 'vassalo dos mercados'? (BBC Brasil)
Armínio planejou ataques especulativos para Soros (Carta Maior)
Como Arminio Fraga explodiu a economia em 2002 (Jornal GGN)

Assistiu a grande mídia do país noticiar essas coisas?

Penso que não viu (e nem verá). Pode ser que com essas críticas eles resolvam noticiar essas coisas (estou chutando, sendo "benevolente"), mas até o momento não saiu nada (e nem espere muito, o noticiário é manipulado).

A vitória de Trump "parece" simples de analisar, mas não é, e você não encontrará nada de relevo assistindo essa mídia "vendida" do país, que deu o golpe contra o próprio país (e contra a maior parte da população, que também tem culpa no que se passa por não ter se levantado e se posicionado contra), alinhada ao grupo derrotado nos EUA.

O discurso vitimista "politicamente correto" também sofreu sérios danos. Em relação a qualquer claque que venha me acusar (e a outros) de sermos "parte" desse tipo de grupo, eu nunca nutri qualquer simpatia a partidos como PSOL, PSTU alinhados com essa baboseira ideológica importada dos Democratas (liberais dos EUA), que a meu ver é o ápice do discurso de domínio neoliberal no mundo, carcomeu até partidos de esquerda históricos pelo mundo com essa retórica aparentemente "bondosa" mas que nunca resolveu problema de preconceito algum (e nem vai resolver), e só fez confundir e pregar autoritarismo.

Combate a preconceito se faz com o livre debate mesmo. Eu fui um dos últimos a aderir à questão que o Roberto Muehlenkamp e a turma do Holocaust Controversies colocava sobre a questão do livre debate e os negacionistas (meu ponto de vista era só restrito à questão da negação do Holocausto, revi até esse ponto), mas posso dizer que eles estavam certos sobre a questão, somente a discussão com argumentos, sem censura, livre, combate certos discursos.

Sem mais delongas, deixo aqui uma análise/entrevista do sociólogo norte-americano James Petras sobre a divisão interna dos EUA com a eleição de Trump, mostrando a briga interna dos EUA. Não vou cravar que é algo inédito (a disputa interna intensa nos EUA, embora a forma atual seja), os anos 60 e 70 foram turbulentos e já teve mais disputa de poder pesado com morte de presidentes (e candidatos) por lá (pros que pensam que a Democracia dos EUA é "perfeita", é só aparência, mexeu com o poder da elite 'hardcore', o "pau come", literalmente), entrevista que sai do lugar comum e detalha realmente o que se passa naquele país.

Pentágono x CIA

"Pela primeira vez, Estados Unidos experimentam o golpismo ao estilo latino-americano"
http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FPela-primeira-vez-Estados-Unidos-experimentam-o-golpismo-ao-estilo-latino-americano%2F6%2F37488
"A CIA, que está se metendo na política doméstica, participa de uma conspiração para negar a decisão constitucional da eleição de Donald Trump."

James Petras
Não localizei o site original, mas a entrevista foi dada pra Rádio Centenário do Uruguai (consta na matéria a informação). Saiu em dezembro passado, mas não foi possível colocar no blog antes.

Entrevistas como essa dificilmente serão mostradas pela Globo (em todos os seus veículos de mídia) e pela "grande mídia" do país (refiro-me ao resto que disputa o "traço" de audiência). O interesse desses grupos é outro, no momento acham que demonizando Trump mudarão algo internamente no Brasil. São uma piada grosseira. Mas não é só eles a fazer isso, a mídia europeia dita "progressista" em geral tem feito a mesma coisa, jornais como o The Guardian chegam ao ridículo com a questão, o "El País" (Espanha) é outra piada de mau gosto. Haja alinhamento e dinheiro liberal com essa mídia, cada vez mais desacreditada pela ausência de jornalismo e muito "jornalismo de torcida" pra manipular resultados.

E mais uma vez faço um apelo pra discussão em um nível mais apurado em vez da discussão "de piti" protagonizada por aqueles grupos de olavetes/coxinhas (essa direita tosca entreguista liberal de internet) e essa turma "pós-moderna" psolista que só fazem encher a paciência, no fundo são farinha do mesmo saco. Política graúda não tem lugar pra "paixões" pueris de grupos toscos. O Brasil definitivamente não é pra "amadores", para as duas partes toscas da briga, parem de querer se meter em briga graúda sem entender o que de fato se passa, sem entender a geopolítica por detrás desses episódios, todo "voluntarismo" costuma ser punido de forma pesada pelo "rolo compressor da História", essa ideia de vocês (e de boa parte da população) de que brigas em países (grandes como o Brasil) são só "assunto interno" é de um provincianismo ridículo (patético, ingênuo), e tudo isso tem implicações bem sérias na vida de milhões, poderemos pagar (ou provavelmente pagaremos) caro por décadas por toda essa lambança que começaram em 2013.

P.S. depois colocarei os links (e informações adicionais) de alguns trechos com citações pois vou ter que procurar as matérias (resolvi publicar o post assim mesmo)

P.S. 2 assistam o vídeo pois não garanto que fique no ar pra "sempre", a Globo sempre tenta tirá-los do ar (rs)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Alguns heróis ciganos

O povo romani reivindica referências como o boxeador Johan Trollmann, o ilustrador Helios Gómez ou o líder anarquista Mariano Rodríguez Vázquez

Da esquerda para a direita, o líder da CNT Mariano Rodríguez Vázquez,
o grafista Helios Gómez, e o boxeador Johan Trollmann.
Jóvenes gitanos plantan cara al antigitanismo
HELENA LÓPEZ / BARCELONA

Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016 - 17:18 CET

Johan Trollmann (1907-1944), conhecido como Rukeli, foi campeão nacional de boxe na Alemanha de 1933, ano em que Hitler ascendeu ao poder. Não é estranho dizer, pois, que oito dias depois, os nazis retiraram o título alegando "falta de nível". O Terceiro Reich não podia aceitar exaltar a um cigano. Um jovem como Rukeli, nas antípodas do modelo ariano que o nazismo pretendia impor. Não só por sua tez morena e sua frondosa mata de cabelo azeviche, senão também por seu característico estilo dançarino sobre o quadrilátero, muito longe do duro 'estilo alemão'. Saltos ágeis e muito efetivos que, contam, tiravam os nazis do sério. Assim que, não sendo bastante lhe retirar o título de campeão, ameaçaram-no em lhe negar também a licença para seguir competindo a nível profissional se não deixasse de "dançar" enquanto lutava.

A seguinte peleja que ele participou acudiu depois de terem tirado seu título, Rukeli, desafiante, subiu ao ringue com o cabelo tingindo de ruivo e o rosto polvilhado de branco (algumas versões dizem que com farinha, outras, que com pó de talco). Com a rebeldia própria de sua condição cigana, Rukeli fez caso e, por uma vez, não dançou. Ficou no centro do ringue coberto em pó branco sem mover as pernas até que foi nocauteado no quinto assalto; tudo dignamente. Ali terminou sua carreira, mas esse gesto de galhardia lhe converteu em um herói para o povo cigano. Um gesto simples mas estoico com o qual ridicularizou a todo um regime racista, que acabou o encarcerando em um campo de trabalho forçado.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL HELIOS GÓMEZ
Os anjos negros da 'Capela cigana' da Modelo,
pintados por Helios Gómez na prisão
Histórias como a de Rukeli, ainda referência, são as que os jovens ciganos não só daqui, senão de meia Europa, reivindicam, fazendo pressão tanto a seus governos locais como através das poderosas redes sociais para lhes fazer justiça.

ARTISTA INTERNACIONAL

Em Barcelona também há heróis ciganos com histórias muito desconhecidas, pese o impacto que deixam em quem as descobre (algo que se sente difícil, já que a história do povo cigano não é estudada nos colégios). É o caso de Helios Gómez (1905-1956), autor da 'Capela cigana' (Link2) de 'La Modelo', ainda tapada sob uma capa de cal em uma habitação fechada. Rebelde como Rukeli, Gómez foi anarquista, comunista e de novo anarquista, segundo desencadeou em decepções. Preso em incontáveis ocasiões por sua ideologia, o ilustrador foi 'convidado' pelo cura do cárcere pra que desenhasse em uma das paredes da cela um fresco da Virgem das Mercês (Barcelona). Também ao melhor estilo Rukeli, Gómez - que fora proibido de pintar entre grades - concordou, mas o fez, como não, a sua maneira. Pintou uma Virgem e um menino Jesus rasgos inequivocamente ciganos, acompanhados por uns anjos negros de Machín que acabaram se convertendo em um apelo contra o regime.

O filho de Helios, Gabriel, passa anos trabalhando na associação cultural que leva o nome de seu pai para restituir a memória do ilustrador, grafista e poeta e de "todos os que, como ele, lutaram pela liberdade".

Outra figura cigana muito reivindica, também rebelde e anarquista, é Mariano Rodríguez Vázquez, 'Marianet'. Secretário Regional da Catalunha e da CNT entre novembro de 1936 e junho de 1939, "desempenhou um papel decisivo no futuro anarcosindicalista e na vida política e social da guerra civil espanhola", segundo a Wikipedia. Urge que as petições do coletivo de que se estude e documente a fundo sua história sejam escutadas para poder ir mais além da enciclopédia livre.

Fonte: El Periódico, Barcelona (Espanha)
http://www.elperiodico.com/es/noticias/barcelona/algunos-heroes-gitanos-5674253
Título original: Algunos héroes gitanos
Tradução: Roberto Lucena

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Restos encontrados em Pskov, Rússia

Um novo artigo foi publicado na semana passada sobre o achado de um túmulo e memorial para 14 judeus, consistindo de "dois recém-nascidos, dois adolescentes, um idoso e nove mulheres" encontrados próximo a Pskov, uma cidade russa à leste da fronteira estoniana. Os restos foram achados por Poisk (Search), uma organização que busca por restos de soldados em áreas de combate pesado da segunda guerra. Poisk poderia verificar que estes eram civis porque, como afirmado pelo porta-voz de Poisk, Rachim Dzhunusov, "os restos eram de crianças, mulheres e idosos, e alguns (crânios) foram quebrados por golpes de coronhadas de rifles [e] e tivemos que os coletar pedaço por pedaço", os mortos "foram despidos, não havia uma única fivela, botão, nada". O artigo deduz da declaração de uma testemunha que os judeus haviam sido capturados depois de fugir da Letônia, mas havia também fontes afirmando que o Einsatzkommando de Sandberger tinha relocado 400 mulheres e crianças da Estônia para Pskov, onde eles foram executados sobre a ordem de Jeckeln em janeiro de 1942. O Yad Vashem tem fontes online sobre os cinco locais de extermínio próximos a Pskov.

Fonte: Holocaust Controversies
Texto: Jonathan Harrison
http://holocaustcontroversies.blogspot.com/2016/12/bodies-found-in-pskov-russia.html
Título original: Remains Found in Pskov, Russia
Tradução: Roberto Lucena

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Filme: "Holocausto Brasileiro" mostra barbárie em hospital psiquiátrico em Minas Gerais

Baseado no livro homônimo de Daniela Arbex, novo documentário da HBO estreia neste domingo (20) e choca por realidade desconhecida

Depois de inspirar uma série de reportagens e um livro, a história do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, é tema do documentário "Holocausto Brasileiro", que estreia neste domingo (20), às 21h, no canal MAX.
Divulgação/HBO: "Holocausto Brasileiro" mostra caso
do Hospital Colônia de Barbacena, onde 60 mil pessoas morreram
Baseado no livro homônimo de Daniela Arbex, "Holocausto Brasileiro" conta o que acontecia nos muros do Colônia, que tratava de pacientes com supostos problemas mentais. Cerca de 60 mil pessoas morreram no hospital durante seus 80 anos de funcionamento.

"Muita gente da minha geração não conhecia essa história, então achei importante contar", explicou a diretora em entrevista ao iG. Ela assina o documentário com Alessandro Arbex e a equipe da HBO Latin America.

O filme demorou dois anos para ser produzido, entre 2013 e 2015, e traz depoimentos emocionantes de sobreviventes do hospital. "Não dá para contar uma história dessas sem se tocar", confessou Daniela sobre a produção do documentário. Na época em que ela começou a série de reportagens sobre o Colônia para o jornal Tribuna de Minas, em 2011, a jornalista tinha acabado de ser mãe pela primeira vez. "Mexeu muito comigo ver as histórias daquelas mulheres que tiveram seus filhos tirados delas", admitiu.

O documentário mostra com detalhes as condições as quais as pessoas internadas no Colônia eram submetidas. Entrevistas com funcionários do hospital e jornalistas que acompanharam a situação de perto são a base para o filme, que faz revelações chocantes, como as de que centenas de pessoas morreram de fome na instituição e de que os pacientes chegaram a beber esgoto por não terem água limpa.

Reprodução: O Hospital Colônia de Barbacena,
em Minas Gerais, é o cenário de "Holocausto Brasileiro"
Para a jornalista, o filme serve para documentar a memória das pessoas que sofreram no hospital. Muitas das pessoas que seriam entrevistadas morreram durante a produção do documentário, enquanto outras que aparecem na tela nunca chegarão a assisti-lo. Um deles é o maquinista do trem que levava os internos até Barbacena. "Era o sonho dele estar em um filme", lamenta a diretora sobre o personagem da entrevista que abre "Holocausto Brasileiro", que morreu antes de conseguir ver o filme.

Mexendo no vespeiro

Quando começou a explorar a história do hospital, Daniela Arbex sabia que o tema poderia causar bastante barulho, mas não tinha ideia da grandeza que ele tomaria. "Eu sabia que era uma história grandiosa, mas o filme foi a grande surpresa", contou. Quando a série de reportagens foi publicada, a jornalista lembra de ter recebido milhares de e-mails de pessoas que tiveram parentes internados em Barbacena.

O crescimento da história também tornou o trabalho de Arbex mais difícil. Seu caminho foi se complicando à medida que o caso do Colônia ganhava mais atenção. "Fui muito bem recebida para fazer a matéria, o governo de Minas Gerais até me passou alguns contatos para as entrevistas. Mas quando fui retomar o caso para escrever o livro, passei a incomodar", disse. "O problema maior foi para fazer o filme", contou a diretora, que passou dois meses em Barbacena produzindo o documentário. "As pessoas da cidade não gostavam da gente lá."

Além do Brasil, "Holocausto Brasileiro" também será exibido pela HBO em toda a América Latina. Para Daniela Arbex, isso cumpre seu compromisso com a história. Além do livro ter sido adotado em cursos de ensino fundamental e médio, a jornalista levará o caso do Hospital Colônia de Barbacena para todo o País e o exterior. "O filme é incrível, a gente sabe o potencial dele, e espero que tenha um caminho lindo", disse a diretora.

"Holocausto Brasileiro" mostra barbárie em hospital psiquiátrico em Minas Gerais
Por Caio Menezes | 20/11/2016 09:00

Fonte: Portal IG
http://gente.ig.com.br/cultura/2016-11-20/holocausto-brasileiro.html
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Acréscimo:

Um pequeno adendo (pequena introdução) ao documentário e livro, lembro de uma matéria que tratava do assunto feita pelo Goulart de Andrade sobre um Hospital psiquiátrico em Juqueri (https://www.tvgazeta.com.br/videos/goulart-de-andrade-em-juqueri/). Mais sobre a matéria conferir aqui. Sempre que vejo algo sobre o livro ou documentário desse livro da Daniela Arbex lembro dessa matéria no Juqueri que me impactou profundamente (provocou um ódio profundo das classes dominantes deste país, do desprezo deles pela vida humana, do higienismo ideológico nazi-liberal dessa gente, gente bárbara, asquerosa, gente da pior espécie, sempre que olho as imagens me causa nojo da classe dominante deste país, da perversão pela qual são "fabricados"). Esses hospitais psiquiátricos parecem/pareciam campos de concentração, literalmente.

Eu ia divulgar o livro "Holocausto brasileiro" (Daniela Arbex) no ano em que saiu (acho que em 2013), mas devidos aos altos e baixos do país (com um golpe no meio, sabotagens etc, e um certo desânimo), foi ficando pra depois, depois... e acabou por não se mencionar antes o livro, e agora o documentário sobre o livro. Mas antes tarde que nunca.

O documentário "Holocausto brasileiro" (procurem pelo Youtube, se não tirarem do ar) mostra a outra face do Brasil, a que a "propaganda oficial" do país não mostra pro mundo, pois colocaria abaixo a imagem de "país cordial", "pacato", "diferente de todos os outros" que a propaganda oficial do país costuma vender, e que acaba por acobertar os inúmeros crimes, desrespeitos e brutalidade que ocorrem corriqueiramente no país pelas pessoas "cordiais" do país e aparato burocrático/privado.

Um país que trata doentes mentais desta forma como a relatada nesses documentários e livro, mostra na realidade um país não muito diferente de uma Alemanha nazi, o princípio de internamento dessas pessoas era o mesmo usado no nazismo, e por 80 longos anos (o regime nazi durou 12 anos). Até a escala de mortes é parecida.

A quem quiser ler mais: Doentes mentais e o Nazismo

Há alguns puristas ou fanáticos religiosos (cheios de melindre, serei sincero, não gosto de quem mistura crença religiosa com questões desse tipo, não gosto de fanático religioso) que não gostam que usem a palavra "Holocausto" pro livro e pro documentário.

Sinceramente, sacralizar uma palavra ou confinar a mesma a um episódio histórico é uma postura bem perigosa (e egoísta também) e que em nada ajuda no entendimento dessas questões, até porque o termo mais adequado pro que houve na segunda guerra é genocídio. Não vou entrar aqui na discussão do surgimento e adoção/uso do termo Holocausto pro genocídio nazista, no blog tem explicação pra isso em posts antigos (clique aqui). Também não tenho o menor interesse em que melindra com supostas "ofensas" sobre uso do nome, não acredito nessas ofensas e sim em uma postura fanática, autoritária e possessiva.

Não vou me alongar mais, leiam a matéria sobre o filme (esta introdução ficaria no começo do post mas resolvi pôr no fim pra não atrapalhar a leitura).

Entrevista com a autora: Livros 63: Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex

sábado, 5 de novembro de 2016

Nazismo de esquerda? (Richard J. Evans) O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita - Parte 02

A quem não entendeu o post, sugiro ler a Parte 01, pois haverá muitas outras partes (espero) sobre o que nos dizem os Historiadores da segunda guerra, nazismo e neonazismo (neofascismo) sobre o nazismo ser de direita. Não só de Historiadores como também de memórias (de peso) e de jornalistas, como o livro clássico sobre o tema que é o "Ascensão e Queda do III Reich" (PDF aqui), do jornalista William Shirer.

Os posts surgiram em virtude da ampla panfletagem de direita feita no Brasil (não só aqui) de grupos de extrema-direita liberal-conservadores tentando empurrar o nazismo pro "campo esquerda" da política, o que não só provoca um problema de entendimento do fenômeno e histórico, como é pura distorção e desonestidade intelectual aguda pra fins políticos. Em grande parte, no caso brasileiro, esta neurose desses grupos (pelo que observo) é porque em muito suas atitudes autoritárias, preconceituosas e saudosas de ditadura se assemelham com parte do nazismo e fascismo, daí o incômodo em querer se livrarem do xingamento de "nazistas", isso quando alguém da esquerda usa pois da parte da esquerda (e do campo democrático, que é mais amplo) há um combate débil a esse tipo de problema (disseminação de panfletagem mentirosa).

Do segundo livro da trilogia do historiador britânico Richard J. Evans, "O Terceiro Reich no poder", com tradução Lúcia Brito. Vol. 2 da trilogia.

Trechos sobre o caráter direitista e conservador do nazismo, e isso porque não selecionei as partes que só falam dos conservadores/conservadorismo porque ficaria extenso os textos, tanto nesta parte como na primeira parte. Serviço de utilidade pública em um país onde uma direita "radicaloide" (principalmente) e ignorante (e pedante) dá um golpe de Estado contra o país e entrega as riquezas do mesmo a petroleiras como se fosse "algo banal" ao mesmo tempo em que cobravam "melhores escolas e hospitais" (podem pedir esmola pra Shell pras escolas e hospitais agora ou pra Chevron, não era isso que queriam? Ou não sabiam do que estava realmente em jogo com todo o ataque promovido pra desestabilizar o país?). Em outros países esse ato dessa gente seria considerado crime de traição grave.
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Pág. 23
Havia uma enorme variedade de grupos extremistas antissemitas de ultradireita em 1919, especialmente em Munique, mas, em 1923, um deles pairava acima dos restantes: o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, dirigido por Adolf Hitler. Tanta coisa foi escrita sobre o poder e o impacto de Hitler e dos nazistas que é importante destacar que o Partido situava-se na periferia distante da política até o final da década de 1920. Em outras palavras, Hitler não era um gênio político que angariou sozinho o apoio em massa para si e seu partido. Nascido na Áustria em 1889, era um artista fracassado com um estilo de vida boêmio que possuía um grande dom: a capacidade de mobilizar as massas com sua retórica. Seu partido, fundado em 1919, era mais dinâmico, mais implacável e mais violento que outros grupos periféricos da extrema direita.

Em 1923, o Partido sentiu-se confiante o bastante para tentar um golpe de Estado violento em Munique como prelúdio para uma marcha sobre Berlim na linha da bem-sucedida Marcha sobre Roma de Mussolini no ano anterior. Mas o Partido fracassou em conquistar o Exército ou as forças políticas conservadoras da Baviera, e o golpe foi dissipado com uma saraivada de tiros. Hitler foi condenado e colocado na prisão de Landsberg, onde ditou seu tratado político autobiográfico, Minha luta, para seu lacaio Rudolf Hess. Por certo não era um plano para o futuro, mas um compêndio das ideias de Hitler, sobretudo a respeito do antissemitismo e da conquista racial da Europa oriental, para todos aqueles que se interessassem em ler.
Pág. 51
Houve mais detenções e fuzilamentos na manhã seguinte, em 1º de julho. No clima geral de violência, Hitler e seus lacaios aproveitaram a oportunidade para acertar velhas contas ou eliminar rivais pessoais. Alguns, claro, eram grandes demais para se atingir, notadamente o general Erich Ludendorff, que andara causando algumas dores de cabeça para a Gestapo com suas campanhas de extrema direita e antimaçonaria; o herói da Primeira Guerra Mundial foi deixado em paz; viria a morrer pacificamente em 20 de dezembro de 1937, sendo-lhe conferidas exéquias respeitosas pelo regime. Mas, na Baviera, o exministro-presidente Gustav Ritter von Kahr, que havia desempenhado um papel-chave ao esmagar o golpe de Hitler em 1923, foi trucidado pelos homens da SS. O crítico de música Wilhelm Eduard Schmid também foi morto na crença errônea de que era Ludwig Schmitt, um ex-partidário do irmão radical de Gregor Strasser, Otto, que havia sido forçado a renunciar ao Partido devido a suas visões revolucionárias e desde então mantinha, da segurança de seu exílio, uma avalanche constante de críticas a Hitler.

O político conservador bávaro Otto Ballerstedt, que tivera êxito em processar Hitler por interromper uma reunião política na qual ele falava em 1921, resultando em um mês de prisão para o líder nazista em Stadelheim, foi detido e fuzilado em Dachau em 1º de julho. Um alto oficial da SS, Erich von dem Bach-Zelewski, escolheu o momento para se livrar de um rival odiado, o líder da cavalaria da SS, Anton von Hohberg und Buchwald, que foi devidamente abatido em casa. Na Silésia, o chefe regional da SS, Udo von Woy rsch, fez fuzilar seu ex-rival Emil Sembach, a despeito de acordo prévio com Himmler de que Sembach seria enviado a Berlim para que lá tratassem do caso dele. A violência também transbordou para outro setor sem conexão. Quatro judeus foram detidos em Hirschberg e “abatidos ao tentar escapar”. O líder da liga de veteranos judeus em Glogau foi levado a um bosque e fuzilado44.
Pág. 102
Sob o Terceiro Reich, o sistema judiciário e penal regular também continuou a lidar com crimes comuns, não políticos – furto, assalto, assassinato e outros –, bem como a impor a nova repressão do Estado policial. Nisso também houve uma rápida expansão da pena capital, à medida que o novo sistema mexia-se para cumprir sentenças de morte pronunciadas contra criminosos capitais na extinta República de Weimar, mas não levadas a cabo devido à incerteza da situação política no começo da década de 1930. Os nazistas prometeram que não haveria mais longos adiamentos de execução enquanto as petições de clemência fossem consideradas. “Os dias de sentimentalismo falso e piegas acabaram”, declarou com satisfação um jornal de extrema direita em maio de 1933. Em 1936, cerca de 90% das sentenças de morte proferidas pelos tribunais estavam sendo cumpridas.  

Promotores e tribunais agora eram encorajados a acusar todos os homicidas de assassinato doloso em vez do crime não capital de homicídio culposo, chegar ao veredito de culpado e proferir a sentença mais dura, resultando em um aumento do número de sentenças de homicídio doloso para cada mil adultos da população de 36 em 1928 para 76 em 1933-3722. Criminosos eram em essência degenerados hereditários e deviam ser tratados como párias da raça, argumentavam os nazistas, recorrendo à obra de criminologistas ao longo das últimas décadas e deixando de lado as qualificações e sutilezas que cercavam as teses principais de tais estudos23.
pág. 180
No final da década de 1920, Rosenberg havia se tornado líder da Liga de Combate pela Cultura Alemã (Kampfbund für deutsche Kultur), uma das muitas organizações especializadas estabelecidas dentro do Partido na época. Em 1933, a Liga agiu depressa para tomar sob seu controle as instituições teatrais alemãs “coordenadas”46. Rosenberg também estava ávido para impor pureza ideológica sobre muitos outros aspectos da cultura alemã, inclusive música e artes visuais, igrejas, universidades e vida intelectual, todas elas áreas que Goebbels originalmente tencionava que caíssem sob o controle do Ministério da Propaganda47.  

A Liga de Combate pela Cultura Alemã era pequena, mas muito ativa. Sua afiliação aumentou de 2,1 mil em janeiro de 1932 para 6 mil um ano depois, 10 mil em abril de 1933, e 38 mil no outubro seguinte. Muitas das investidas contra músicos judeus e esquerdistas que ocorreram na primavera e no começo do verão de 1933 foram organizadas ou inspiradas pela Liga de Combate pela Cultura Alemã, integrada por um número substancial de críticos de música e escritores de extrema direita. Além disso, Rosenberg tinha uma poderosa arma de propaganda à sua disposição na forma do Observador Racial, o jornal diário nazista, do qual ele era o editor-chefe. Para piorar a situação para Goebbels, as visões de Rosenberg sobre arte e música eram muito mais afinadas com as de Hitler que as dele, e em mais de uma ocasião o pendor de Goebbels por inovações culturais ameaçou dar a vantagem para Rosenberg48.
pág. 265
No fim das contas, porém, composições como Carmina Burana, a despeito de toda a popularidade, ficaram em segundo lugar no panteão musical, atrás dos grandes compositores de épocas passadas mais admirados por Hitler. O primeiro entre esses era Richard Wagner. Hitler era um adorador de suas óperas desde a juventude em Linz e Viena antes da Primeira Guerra Mundial. Elas encheram sua cabeça com retratos míticos de um passado alemão heroico. Wagner foi também o autor de um notório panfleto atacando o Judaísmo na música. Contudo, a influência do compositor sobre Hitler com frequência tem sido exagerada.

Hitler jamais referiu-se a Wagner como fonte de seu antissemitismo, e não há evidência de que tenha lido qualquer um dos textos de Wagner. Ele admirava a coragem resoluta do compositor na adversidade, mas não reconheceu nenhuma dívida a suas ideias. Se Wagner teve influência sobre os nazistas, foi menos direta, por meio de doutrinas antissemitas do círculo que sua viúva Cosima reuniu após a morte dele, e do mundo mítico retratado em suas óperas. Ao menos nessa área eles habitavam o mesmo espaço cultural, repleto de nacionalismo mítico alemão. A devoção de Hitler a Wagner e sua música era óbvia. Já na década de 1920 ele havia se tornado amigo da nora inglesa de Wagner, Winifred, e de seu marido Siegfried Wagner, guardiães do templo do compositor na grande casa de ópera que ele construiu em Bay reuth. Eram partidários resolutos da extrema direita. No Terceiro Reich, tornaram-se algo muito parecido a uma nobreza cultural28.
pág. 293-294
Um exemplo pessoal característico da fusão de patriotismo, militarismo e religiosidade na tradição dominante do protestantismo alemão foi proporcionado por Martin Niemöller, pastor de Berlim nascido em 1892 e filho de um pastor luterano, embora batizado como calvinista. Niemöller tornou-se cadete-oficial da Marinha alemã e então serviu a bordo de submarinos na Primeira Guerra Mundial, assumindo o comando de um em junho de 1918. Suas reminiscências da guerra não são nenhuma obra-prima da literatura, mas exsudam um espírito empolgado comparável a Tempestade de aço, de Ernst Jünger, celebrando com gosto o afundamento de navios mercantes inimigos. Ao atracar em Kiel no final de novembro de 1918 após ouvir pelo rádio as notícias sobre o encerramento da guerra e o colapso da monarquia, ele viu-se, conforme escreveu mais tarde, como “um estranho em meu próprio país”. 

Não havia “um ponto de agrupamento para homens de mentalidade nacionalista” que se opunham “aos manipuladores dessa ‘Revolução’”3. Um período de trabalho em uma fazenda convenceu-o de que devia se encarregar de resgatar sua nação da catástrofe espiritual que julgava ter se abatido sobre ela, e começou a formação de pastor na Westfália. Ativo na liga de estudantes dos nacionalistas alemães, apoiou o golpe abortado de Kapp que tentou derrubar a República em março de 1920. Ajudou a fundar uma unidade das Brigadas Livres de 750 estudantes para lutar contra o Exército Vermelho formado por grupos de esquerda na região. Mais adiante, envolveu-se em outro grupo paramilitar de extrema direita, a Organização Escherich. Em 1923, Niemöller e seus irmãos carregaram o esquife do sabotador nacionalista Albert Leo Schlageter, abatido por tropas francesas em Düsseldorf durante a ocupação do Ruhr4.
pág. 404-405
O sucesso dos nazistas em adequar as universidades a seus propósitos ideológicos foi, portanto, surpreendentemente limitado26. O ensino continuou com mudanças apenas relativas e superficiais na maior parte dos setores. Estudos sobre as teses de doutorado concluídas durante a era nazista mostraram que não mais de 15% delas poderiam ser classificadas de nazistas na linguagem e abordagem27. Professores esnobes e elitistas do tipo tradicional desprezavam abertamente os aventureiros políticos trazidos para dentro das universidades pelo regime, ao passo que a maioria destes ficava tão enfronhada na administração universitária que tinha pouco tempo para propagar suas ideias aos estudantes. Por outro lado, o anti-intelectualismo do movimento nazista assegurou que muitas figuras importantes do Partido, de Hitler para baixo, ridicularizassem muitas daquelas ideias e as julgassem obscuras demais para ter qualquer relevância política real.

Nem Bernhard Rust nem Alfred Rosenberg, as duas lideranças nazistas eminentes no campo da educação e ideologia, eram politicamente hábeis ou determinados o bastante para driblar professores astutos cujas aptidões para intriga e dissimulação haviam sido aguçadas em décadas de luta interna nos comitês universitários. A fundação de um novo instituto dedicado ao estudo de alguma obsessão nazista favorita podia ser saudada pelos professores conservadores como uma forma de se livrar de um colega impopular por meio de um desvio acadêmico, como aconteceu quando o rabugento historiador de extrema direita Martin Spahn ganhou o seu próprio Instituto de Política Espacial na Universidade de Colônia em 1934. Isso matou dois coelhos com uma única cajadada, visto que removeu Spahn do Departamento de História, onde ele era profundamente impopular, para um setor em que não tinha que entrar em contato com os colegas, e ao mesmo tempo demonstrou o comprometimento da universidade com as ideias geopolíticas do novo regime28.
pág. 407
Pacifista, judeu, teórico e partidário da República de Weimar, Einstein representava tudo que Lenard mais odiava. Além disso, os cientistas que tinham validado sua teoria eram britânicos. No debate que se seguiu sobre a relatividade, Lenard assumiu a liderança da rejeição à teoria de Einstein como uma “fraude judaica” e da mobilização da comunidade da física contra ela. Lenard foi parar nos braços dos nazistas quando sua recusa em aderir ao luto oficial pelo assassinato do ministro de Relações Exteriores Rathenau – cujo extermínio ele havia defendido publicamente não muito tempo atrás – desencadeou uma manifestação sindical contra ele em 1922, e Lenard teve que ser levado em custódia policial para sua própria proteção.  

Proibido de retornar ao trabalho por sua universidade, Lenard foi reintegrado em consequência da pressão dos estudantes de extrema direita, em cuja órbita ele então gravitava. Em 1924, louvou em público o golpe da cervejaria de Hitler no ano anterior e, embora não entrasse formalmente para o Partido Nazista até 1937, já era para todos os fins e efeitos um seguidor do movimento e participou ativamente do trabalho de grupos como a Liga de Combate pela Cultura Alemã de Rosenberg. Saudou a chegada do Terceiro Reich com entusiasmo desenfreado, celebrou a remoção de professores judeus das universidades e publicou um texto em quatro volumes sobre Física alemã em 1936-37 que ele com certeza esperava que proporcionasse os fundamentos para uma nova “física ariana” de base racial que eliminaria de uma vez por todas a doutrina da relatividade da ciência alemã33.
pág. 453
Schacht foi catapultado para a fama perto do final de 1923 pelo papel como comissário para a moeda nacional, cargo a que foi indicado por Hans Luther, na época ministro das Finanças. Ele provavelmente deveu a nomeação às extensas conexões que havia construído nos círculos financeiros, ao longo dos anos anteriores, como diretor de uma sucessão de grandes bancos. Seu papel para acabar com a hiperinflação levou-o à indicação para presidente do Reichsbank após a morte súbita do prévio detentor do cargo em 20 de novembro de 1923. Ali ele consolidou a reputação de mago financeiro ao manter com sucesso a estabilidade do rentenmark e depois – com um coro de desaprovação da extrema direita – desempenhar um papel-chave na renegociação das reparações sob o Plano Young.

No começo de 1930, quando o governo renegociou partes do Plano que Schacht considerava que deveriam ter sido mantidas, ele exonerou-se e entrou em aposentadoria temporária. Isso sugeriu que então havia se deslocado para a extrema direita nacionalista em termos políticos; de fato, na época ele deixou o Partido Democrata, embora sem transferir sua lealdade para nenhum outro. Apresentado a Hitler em um jantar dado por Hermann Göring no começo de 1931, ficou favoravelmente impressionado com o líder nazista. Como muitas outras figuras do sistema, Schacht achou que o radicalismo de Hitler poderia ser domado com a associação do nazista a outras figuras mais conservadoras e mais experientes, como ele mesmo62
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Não foi surpreendente, portanto, que ele escolhesse um representante de destaque da comunidade empresarial como ministro da Economia do Reich após a saída forçada do intratável nacionalista alemão Alfred Hugenberg5. O escolhido foi Kurt Schmitt, diretor-geral da seguradora Allianz. Nascido em 1886 na modesta família burguesa de um médico, Schmitt foi um entusiasmado membro das fraternidades de duelo na universidade, onde estudou direito comercial, e a seguir trabalhou por curto período no serviço público bávaro sob Gustav Ritter von Kahr, que mais tarde ficaria famoso na extrema direita da Baviera. Pouco depois da eclosão da guerra, Schmitt entrou na filial de Munique da Allianz. Embora trabalhasse muitíssimo, não tinha nada de burocrata insensível. Ele desenvolveu uma abordagem humana para o seguro, fazendo pessoalmente a mediação entre reclamantes e segurados, reduzindo com isso de modo substancial o número de dispendiosas ações judiciais com que a companhia tinha que lidar.

Como era de se prever, isso levou à sua rápida ascensão pelos escalões administrativos, uma ascensão que não foi seriamente interrompida pela guerra, da qual ele teve baixa por invalidez no começo, com um ferimento pequeno que infeccionou repetidas vezes e o impediu de voltar ao front. Tornou-se diretor-geral aos 34 anos de idade. Em breve, encorajado pelos subordinados, Schmitt vestia dispendiosos trajes sob medida e convivia com os maiorais nos clubes de cavalheiros de Berlim. Sob a liderança de Schmitt, a Allianz expandiu-se rapidamente com fusões e tomadas de controle que caracterizaram também outros setores do mundo empresarial na década de 1920. A exemplo de outros empresários, Schmitt estava insatisfeito com as condições sob as quais a iniciativa privada tinha que operar na era de Weimar e fez lobby por uma reforma na lei referente aos seguros por meio da Associação do Seguro Privado do Reich. Isso colocou-o em contato com políticos importantes, dos quais muitos ficaram impressionados com sua competência, determinação e evidente sagacidade financeira. No começo da década de 1930, Schmitt havia se tornado uma figura pública de certo renome. Ele incrementou sua reputação com o desempenho no Conselho Consultivo Econômico implantado por Brüning. Tanto Brüning quanto Papen ofereceram-lhe o cargo de ministro das Finanças. Ele recusou as ofertas na crença de que a situação econômica reinante não lhe permitiria fazer o trabalho com qualquer grau de sucesso6.
pág. 576
No final do século XIX e começo do século XX, o campesinato alemão em geral enquadrava-se no peculiar grupo social amorfo conhecido no discurso político pelo intraduzível termo alemão Mittelstand. A palavra expressava em primeiro lugar as aspirações dos propagandistas de direita de que as pessoas que não eram nem burguesas nem proletárias tivessem um lugar reconhecido na sociedade. Mais ou menos equivalente ao francês petite bourgeoisie ou ao inglês lower middle class (classe média baixa), no início da década de 1930 passou a simbolizar muito mais que um grupo social: na política alemã, representava um conjunto de valores. 

Situado entre as duas grandes classes antagonistas em que a sociedade havia se dividido, representava as pessoas autossuficientes, independentes, que trabalhavam duro, o cerne saudável do povo alemão, injustamente deixado de lado pela guerra de classes que grassava ao redor delas. Era a pessoas como essas – pequenos lojistas, artesãos habilidosos que administravam suas oficinas, fazendeiros camponeses autossuficientes – que os nazistas haviam inicialmente dirigido seu apelo. O programa do Partido Nazista de 1920 era, entre outras coisas, um produto típico da política de extrema direita do Mittelstand alemão; o apoio dessas pessoas estava entre os fatores que de início fez o Partido decolar1.
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Artesãos e lojistas não foram o único grupo social que esperou uma melhora de status com a chegada do Terceiro Reich. Funcionários de escritórios e empregados assalariados de empresas privadas há muito invejavam os vencimentos, status e privilégios superiores do funcionalismo público. Conhecidos popularmente como o “novo Mittelstand”, estavam, entretanto, profundamente divididos em termos de política, com organizações social-democratas rivalizando com as de extrema direita, e seus votos no Partido Nazista nos anos de Weimar não ficaram acima da média do país como um todo. Muitos esperavam que o Terceiro Reich estabelecesse mais uma vez as barreiras de status entre funcionários de escritórios e trabalhadores manuais que os anos anteriores haviam derrubado.

O medo da proletarização” havia sido uma importante força motriz dos sindicatos de funcionários de escritórios, seja de esquerda, centro ou direita. Mas eles ficaram amargamente decepcionados quando Hitler chegou ao poder. Os líderes das três alas políticas dos sindicatos de funcionários de escritórios foram detidos e colocados em campos de concentração, e os sindicatos, junto com todas as outras organizações da categoria, foram amalgamados na Frente de Trabalho Alemã16. Além disso, o fato de os operários e suas organizações serem formalmente integrados à comunidade nacional desmantelou mais uma barreira. Os funcionários de escritórios não possuíam as tradições de união ou a cultura distinta de que o trabalho organizado havia desfrutado no movimento social-democrata e em menor grau no comunista, de modo que eram mais vulneráveis à atomização e aterrorização e menos capazes até de resistência passiva17.
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Ideias e políticas semelhantes podiam ser encontradas em outros países do centro-leste da Europa que lutavam para construir uma nova identidade nacional na época, mais notadamente Romênia e Hungria71. Esses países tinham movimentos fascistas próprios na forma da Guarda de Ferro na Romênia e da Cruz de Flecha na Hungria que pouco ou nada deviam aos nacional-socialistas alemães na virulência do ódio aos judeus; assim como na Alemanha, o antissemitismo ali também estava ligado ao nacionalismo radical, à crença de que a nação não havia atingido a realização plena e de que eram sobretudo os judeus que a impediam de chegar a ela.  

Na Romênia, havia cerca de 750 mil judeus no início da década de 1930, ou 4,2% da população, e, como na Polônia, eram contados como uma minoria nacional. Sob pressão crescente da Guarda de Ferro radical fascista no final dos anos de 1930, o rei Carol nomeou um regime de direita de curta duração que começou a sancionar a legislação antissemita que o monarca continuou a aplicar quando tomou o poder como ditador em 1938. Em setembro de 1939, pelo menos 270 mil judeus haviam sido privados da cidadania romena; muitos haviam sido expulsos da profissão, inclusive do Judiciário, polícia, ensino e corpos de oficiais, e todos estavam sob forte pressão para emigrar72.
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Ribbentrop estava longe de ser um nazista de primeira hora. Durante a maior parte da República de Weimar ele compartilhou o ódio da maioria dos alemães de classe média pelo Acordo de Paz, desprezou o sistema parlamentar e ficou consideravelmente alarmado com a ameaça do comunismo, mas não gravitou para a extrema direita até 1932. Como membro do elegante Herrenclub, o clube de cavalheiros de Berlim frequentado pela aristocracia, inclusive Papen e seus amigos, Ribbentrop conheceu Hitler e envolveu-se nas complexas negociações que por fim levaram à sua nomeação como chanceler do Reich em janeiro de 1933. Para o provinciano Hitler, Ribbentrop, assim como Putzi Hanfstaengl, velho amigo íntimo do Líder nazista, parecia um homem do mundo, experiente em viagens ao exterior, poliglota, conhecedor da vida social. Hitler começou a usá-lo em missões diplomáticas especiais, ignorando o Ministério de Relações Exteriores, conservador e limitado pela rotina.

Indubitavelmente com a aprovação de Hitler, Ribbentrop montou um gabinete próprio independente, no estilo do escritório de Alfred Rosenberg, para desenvolver e influenciar a política de relações exteriores. Não demorou muito e tinha uma equipe de 150 pessoas engajadas em uma espécie de guerrilha institucional com os mandarins do Ministério de Relações Exteriores. O sucesso de Ribbentrop ao negociar o Acordo Naval Anglo-Alemão conferiu-lhe a reputação de se dar bem com os britânicos, e no fim do verão de 1936 Hitler nomeou-o embaixador em Londres, com a missão de melhorar ainda mais as relações e se possível produzir uma aliança anglo-alemã38.
Série: Nazismo de esquerda? Parte 1 (Richard J. Evans)

Notas:

Cap. 1 O ESTADO POLICIAL (Repressão e resistência)

44 Göring mais tarde declarou: “Estendi meu dever ao aplicar um golpe também contra esses descontentes”. Que ele tenha feito isso de modo espontâneo e por iniciativa própria ao ouvir falar dos eventos em Munique, conforme sustentaram alguns historiadores, é de se duvidar em vista do cuidado com que todo o restante da operação foi preparado e a veemência com que Hitler havia denunciado Papen e seus associados poucos dias antes. Para a ideia de que a ação foi “improvisada”, ver Longerich, Die braunen Bataillone, p. 218 (embora sua principal evidência, a afirmação de Göring, de fato não demonstre que ele decidiu “estender” sua tarefa espontaneamente e sem consultas; a necessidade de se explicar era óbvia, dado que a justificativa para o expurgo foi proporcionada pelas supostas atividades de Röhm, não de Schleicher e Papen); para evidência do cuidadoso planejamento de antemão, ver Bessel, Political Violence, p. 133-7. Mais detalhes em Kershaw, Hitler, I, p. 512-5; e Heinz Höhne, The Order of the Death’s Head: The Story of Hitler’s SS (Londres, 1972 [1966]), p. 85-121. Sauer, Die Mobilmachung, p. 334-64, nota o trabalho sistemático de preparação executado por Hitler e lideranças do Partido de abril em diante, ressaltando a importância da ofensiva da propaganda contra Röhm e a SA, particularmente dentro do Partido. Para Ballerstedt, ver Evans, The Coming of the Third Reich, p. 181. Para Ludendorff, ver Harald Peuschel, Die Männer um Hitler: Braune Biographien, Martin Bormann, Joseph Goebbels, Hermann Göring, Reinhard Heydrich, Heinrich Himmler und andere (Düsseldorf, 1982).

“Inimigos do povo” III

23 Para um levantamento exaustivo das variedades de teorias sobre criminalidade hereditária e parcialmente hereditária ou moderada, ver Richard Wetzell, Inventing the Criminal: A History of German Criminology 1880-1945 (Chapel Hill, NC, 2000), p. 179-232.

Cap. 2 - A MOBILIZAÇÃO DO ESPÍRITO. Esclarecendo o povo

47 Ver Reinhard Bollmus, Das Amt Rosenberg und seine Gegner: Studien zum Machtkampf im nationalsozialistischen Herrschaftssystem (Stuttgart, 1970).

48 Hildegard Brenner, Die Kunstpolitik des Nationalsozialismus (Reinbek, 1963), p. 7-21, 73-86, fornece uma boa narrativa.

28 Frederic Spotts, Bayreuth: A History of the Wagner Festival (New Haven, 1994), esp. p. 159-88; Brigitte Hamann, Winifred Wagner oder Hitlers Bayreuth (Munique, 2002); Hans Rudolf Vaget, “Hitler’s Wagner: Musical Discourse as Cultural Space”, em Kater e Riethmüller (eds.), Music and Nazism, p. 15-31.

3 Martin Niemöller, From U-Boat to Pulpit (Londres, 1936 [1934]), p. 143.
4 Ibid., p. 180-3, 187; James Bentley, Martin Niemöller (Oxford, 1984), p. 20-30, 39-40.

27 Léon Poliakov e Josef Wulf, Das Dritte Reich und seine Denker: Dokumente (Berlim, 1959), p. 73; Wilhelm Ribhegge, Geschichte der Universität Münster: Europa in Westfalen (Münster, 1985), p. 194.

28 Golczweski, Kölner Universitätslehrer, p. 338-49.

33 Ibid., p. 85-102; citação (93) das memórias não publicadas de Lenard, mencionada em Charlotte Schmidt-Schönbeck, 300 Jahre Physik und Astronomie an der Kieler Universität (Kiel, 1965), p. 119.

61 Hjalmar Schacht, My First Seventy-Six Years: The Autobiography of Hjalmar Schacht (Londres, 1955), p. 10-154.
62 Ibid., p. 155-306.

6 Gerald D. Feldman, Allianz and the German Insurance Business, 1933-1945 (Cambridge, 2001), p. 1-50.

1 Para uma ampla literatura, ver em particular Heinz-Gerhard Haupt (ed.), Die radikale Mitte: Lebensweisen und Politik von Kleinhändlern und Handwerkern in Deutschland seit 1848 (Munique, 1985); David Blackbourn, “Between Resignation and Volatility : The German Petty Bourgeoisie in the Nineteenth Century ”, em idem, Populists and Patricians: Essays in Modern German History (Londres, 1987), p. 84-113; Heinrich August Winkler, Mittlestand, Demokratie und Nationalsozialismus: Die politische Entwicklung von Handwerk und Kleinhandel in der Weimarer Republik (Colônia, 1972); Adelheid von Saldern, Mittlestand im “Dritten Reich”: Handwerker-Einzelhändler-Bauern (Frankfurt am Main, 1979).

16 Günther Schulz, Die Angestellten seit dem 19. Jahrhundert (Munique, 2000), p. 36-7; Michael Prinz, Vom neuen Mittelstand zum Volksgenossen: Die Entwicklung des sozialen Status der Angestellten von der Weimarer Republik bis zum Ende der NS-Zeit (Munique, 1986), p. 92-143, 229.

17 Prinz, Vom neuen Mittelstand, p. 334-5.

71 Mendelsohn, The Jews; Bela Vago, The Shadow of the Swastika: The Rise of Fascism and Anti-Semitism in the Danube Basin, 1936-1939 (Londres, 1975).

72 Mendelsohn, The Jews, p. 171-211; David Schaary, “The Romanian Authorities and the Jewish Communities in Romania between the Two World Wars”, em Greebaum (ed.), Minority Problems, p. 89-95; Paul A. Shapiro, “Prelude to Dictatorship in Romania: The National Christian Party in Power, December 1937-February 1938”, Canadian-American Slavic Studies, 8 (1974), p. 45-88.

38 Jacobsen, Nationalsozialistische Aussenpolitik, p. 298-318.

|***| Nazismo de esquerda? (Richard J. Evans) O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita - Parte 01
|***| Nazismo de esquerda? (Ian Kershaw) O que os Historiadores nos dizem sobre o Nazismo SER de (extrema) Direita - Parte 03

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